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terça-feira, 16 de março de 2010

Rato gordo prejudica pesquisas médicas

16/03/2010 - 13h29

Rato gordo prejudica pesquisas médicas, afirmam cientistas

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S. Paulo
Um espectro ronda o mundo da pesquisa biomédica: o rato gordo. Ou os "roedores de laboratório metabolicamente mórbidos", para usar a terminologia de um artigo recente na revista científica "PNAS".
De acordo com o estudo, camundongos e ratos sedentários e acima do peso, correspondentes à maioria das cobaias criadas hoje, seriam péssimos análogos do organismo humano normal, o que poderia atrapalhar um bocado testes de medicamentos e terapias nos bichos.
O alerta partiu de um quarteto de cientistas liderados por Mark Mattson, do Instituto Nacional de Pesquisas sobre Envelhecimento (EUA). Se o grupo estiver correto, será preciso implantar uma série de medidas simples, mas hoje não muito comuns (como controlar a alimentação dos roedores e garantir que eles façam exercício e tenham momentos de "lazer") para que os resultados das pesquisas com animais melhorem sua confiabilidade.
"Quando conversei com outros cientistas mundo afora sobre os nossos achados e mostrei que os animais deles comiam demais, eram sedentários e pré-diabéticos, eles responderam dizendo que nunca tinham considerado esse fato ao projetar seus estudos ou ao interpretar seus dados", contou Mattson à Folha, por e-mail.

Editoria de Arte/Folha Imagem/Fernando Gonzales  


À vontade até demais
Os roedores de laboratório são afetados pela relativa falta de rodinhas de exercício e de brinquedos que possam estimular as capacidades cognitivas dos bichos. Soma-se a isso a chamada alimentação "ad libitum" ("à vontade", em latim): com comida sempre disponível, a tendência é eles acabarem se entupindo de ração.
Mattson e seus colegas compilaram dados sobre a saúde dos bichos confinados. Também fizeram seu próprio experimento, comparando ratos gorduchos com bichos cuja comida foi controlada. A pressão dos bichos comilões era 15% mais alta que a dos sob dieta. O nível de glicose no sangue era 20% maior, e o de colesterol correspondia quase ao dobro.
O resultado, previsível, é que o organismo de um roedor de laboratório "normal" (o que come demais e não se exercita) é muito diferente do de um bicho mais ativo e menos comilão.
Isso pode significar, entre outras coisas, que um remédio feito para tratar determinada doença humana simulada nos roedores (por meio de uma modificação genética, por exemplo) vai acabar atuando sobre os sintomas do sedentarismo e do excesso de peso, e não sobre a doença em si. Ou seja: o que funciona num rato gordo muito provavelmente não funcionará num humano de peso normal.
"O ponto levantado na pesquisa é relevante", diz Marcelo Nóbrega, geneticista pernambucano que trabalha na Universidade de Chicago (EUA).
"Ratos e camundongos entraram na pesquisa biomédica como modelos da biologia humana, tinham um número grande de semelhanças, desenvolvem doenças parecidas etc. Mas, à medida que iam sendo mais e mais utilizados, ficou claro que estavam longe de ser um modelo ideal. Se o que nós consideramos um animal normal não passa de um bicho com sérios desbalanços metabólicos e comportamentais, há a possibilidade de que isso distorça os resultados dos experimentos."
Já Valderez Valero-Lapchik, especialista em animais de laboratório da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), vê com ceticismo as conclusões do estudo americano. "Os dados dos nossos animais não batem com os que eles apresentam. Seria desperdício gastar drogas em animais com muita gordura, porque o tecido adiposo pode absorver os medicamentos."
Ela também discorda da ideia de usar como parâmetro bichos mais ativos e mais magros, levando em conta o aumento de pessoas acima do peso e sedentárias na população de hoje. "Animais que se exercitam simulariam melhor atletas."

Fernando Gonzales
O biólogo Sérgio Greif argumenta que pesquisas com animais só ajudam a aumentar o número de pesquisas, não sua qualidade

Animais não servem
O questionamento sobre a validade científica de experimentos nos roedores chama a atenção para outro ponto: o uso de animais em geral para a busca de avanços pela saúde humana.
"O que cabe questionar é se camundongos e ratos que não estejam acima do peso são bons análogos do organismo humano normal", afirma o biólogo Sérgio Greif, do grupo Sociedade Vegana e coautor do livro "A Verdadeira Face da Experimentação Animal".
Ele argumenta que "a extrapolação de dados entre espécies não tem base científica; pesquisas com animais apenas favorecem a quantidade de pesquisas possíveis de serem realizadas, não sua qualidade."
"Quando comparamos dados obtidos de ratos e camundongos com dados obtidos de seres humanos vemos que a extrapolação de dados não é de forma alguma algo científico". De acordo com o biólogo, "as diferenças genéticas mostram que ratos não são seres humanos em miniaturas, mas organismos completamente diferentes no que se refere ao seu metabolismo, à sua fisiologia e à forma como seus organismos respondem aos diferentes estímulos.
Ele cita diferentes métodos substitutivos, como: sistemas biológicos in vitro, cromatografia e espectrometria de massa, farmacologia e mecânica quânticas, estudos epidemiológicos, estudos clínicos de moléstias em populações diversas, necrópsias e biópsias humanos, simulações computadorizadas, pesquisas genéticas, entre outras.
Além da questão científica em si, George Guimarães, presidente do grupo de defesa dos direitos animais Veddas, aponta outro contra-argumento: "Consideramos isso [uso de animais] inaceitável do ponto de vista moral e ético, uma vez que esses animais não escolheram ser usados para servir aos nossos interesses."
O representante da Interniche (International Network for Humane Education) no Brasil, o biólogo e psicólogo Luís Martini, estima que ainda mais de 115 milhões de animais sejam usados por ano no mundo em experimentos e testes.
Com colaboração de MAURÍCIO KANNO, para a Folha Online

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