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sábado, 9 de janeiro de 2010

Habitats ricos, recifes são "fábricas" de novas espécies



08/01/2010 - 13h21

Habitats ricos, recifes são "fábricas" de novas espécies

REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S. Paulo
A ameaça que paira sobre os recifes do mundo significa não só o sumiço de espécies hoje, mas uma possibilidade considerável de que, no futuro, não apareçam novas espécies capazes de substituí-las.
Essa é a principal implicação de um estudo segundo o qual, nas últimas centenas de milhões de anos, os recifes foram a grande usina de novas formas de vida nos oceanos da Terra.
Richard Ling/Creative Commons

Grande Barreira de Corais da Austrália; recifes são habitat rico "gerador" de espécies, daí a necessidade maior de atenção
Ao destruir esses habitats riquíssimos, portanto, "estamos colocando em risco a criação de futuras espécies", declarou à Folha o coordenador do estudo, Wolfgang Kiessling, da Universidade Humboldt em Berlim.
"A recuperação da atual crise de biodiversidade vai demorar muito mais sem os recifes", afirma Kiessling, que assina o estudo na edição desta semana da revista "Science" com colegas dos Estados Unidos.
A metodologia do trabalho não poderia ser mais simples. Usando um dos principais bancos de dados sobre espécies extintas do mundo, que vai do presente até a origem da vida animal (lá se vão mais de 550 milhões de anos), os cientistas esmiuçaram em que tipo de ambiente novos grupos de animais costumavam aparecer.
Rochas e rochas
Especular sobre isso é possível porque o tipo de rocha em que os restos da criatura foram preservados muitas vezes dá a pista sobre a natureza de seu finado habitat. A composição química e o aspecto de uma rocha formada em mar aberto é bem diferente da que se estruturou perto da praia.
A análise se concentrou nos invertebrados bentônicos, como são conhecidos os bichos que vivem grudados no leito do mar ou perto dele.
Entre esses, mais de um quinto dos gêneros (o grupo de seres vivos um pouco mais abrangente do que a espécie; o do homem, ou Homo sapiens, é o Homo) tem seu primeiro registro em recifes.
Os pesquisadores calculam que a chance de um gênero qualquer de animais aparecer em recifes é 45% maior do que em qualquer outro habitat marinho.
Como os gêneros, depois de algum tempo, dão as caras em ambientes costeiros sem recifes ou em mar aberto, os cientistas apostam que, além de usinas de espécies, os recifes também são exportadores.

Editoria de Arte/Folha Imagem

"Pensando no oceano como um deserto de nutrientes, os recifes podem funcionar como uma espécie de refúgio. Separados por um mar imenso, teoricamente inóspito para a maioria dos grupos, eles poderiam concentrar indivíduos, que passariam a sofrer pressões de especiação [formação de novas espécies], em nível local", analisa o ecólogo Luiz Fernando Jardim Bento, doutorando da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
Bento, que comentou a pesquisa na "Science" a pedido da Folha, diz que o resultado era o esperado diante do que se sabe sobre a biodiversidade nesses ambientes.
"Minha primeira impressão foi desconfiar um pouco da metodologia. Falar de origem de espécies se baseando em fósseis apenas de invertebrados bentônicos é querer puxar um pouco a sardinha para os recifes. Acho sim que o resultado é coerente, mas talvez tenha sido enviesado", pondera.
Em perigo
Seja como for, o que ninguém discute é o risco de sumiço que os recifes, principalmente os de coral, enfrentam hoje.
O aumento da temperatura dos oceanos, por exemplo, ameaça matar as algas que vivem em simbiose com os corais. Mas o clima nem é o pior inimigo, diz Kiessling. "A pesca predatória e a poluição talvez sejam ainda mais importantes", avalia.


http://www1.folha.uol.com.br/folha/ambiente/ult10007u676427.shtml

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