31/01/2010
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11h31
Brasileiros acham indícios de que DNA pode ter hélice tripla
REINALDO JOSÉ LOPES
da Folha de S.Paulo
Sempre que alguém se põe a recontar a saga da descoberta da estrutura
do DNA, volta à baila a mancada histórica do genial Linus Pauling
(1901-1994), Nobel de Química e da Paz.
Ele chegou a publicar um estudo propondo que a molécula da
hereditariedade era uma esquisitíssima hélice tripla, com as "letras"
químicas A, T, C e G apontando para fora da molécula. No mesmo ano,
1953, James Watson e Francis Crick sepultaram o modelo maluco: o DNA só
podia ser mesmo uma hélice dupla, simples e icônica. Ou não?
| Dados de análise do material genético de duas espécies de moscas indicam que o DNA talvez forme triplas hélices em células viva |
Depende, sugere o trabalho de uma equipe brasileira. Os dados
obtidos por eles, durante a análise do material genético de duas
espécies de moscas, indicam que o DNA talvez forme triplas hélices em
células vivas, afinal de contas. A configuração pouco ortodoxa da
molécula apareceria em locais muito específicos, influenciando a
maneira como o material genético funcionaria nessas regiões.
"É bom ressaltar que a gente não está tentando ressuscitar o modelo
do Pauling", explica Eduardo Gorab, do Instituto de Biociências da USP.
"A estrutura que ele propunha era totalmente estrambólica. Mal dá para
entender como um gênio do calibre dele se saiu com aquele negócio, que
nem ácido é [tanto o DNA quanto o RNA, seu "primo" molecular, são
classificados quimicamente como ácidos nucleicos]", afirma o
pesquisador da USP.
Pista antiga
Se não reabilita o ganhador do Nobel duplo, o trabalho de Gorab e
seus colegas segue uma pista que é quase tão antiga quando a publicação
da estrutura "correta" do DNA. No final dos anos 1950 e durante todos
os anos 1960, experimentos mostraram, inicialmente, que o RNA, mais
conhecido como o transmissor da informação do DNA para a maquinaria das
células, podia formar triplas hélices. "Mais tarde, houve a constatação
de que isso também podia acontecer em fitas híbridas de RNA ou DNA, e
mesmo apenas com DNA", afirma Gorab.
Os dados vinham, é verdade, de análises in vitro dos ácidos
nucleicos, em contextos bem diferentes da atuação natural das moléculas
no organismo, mas eram intrigantes, nem que fosse como curiosidade
bioquímica.
A capacidade de identificar hélices triplas, seja de RNA, seja de
DNA, tornou-se mais apurada nos anos seguintes graças ao trabalho de
Bernard David Stollar, da Universidade Tufts (Estados Unidos), que
criou anticorpos capazes de se ligar a essas moléculas.
Trata-se, grosso modo, de um sistema de fechadura e chave: os
anticorpos se adaptam ao formato das hélices triplas, grudando-se nelas
e denunciando a presença das ditas cujas. "O trabalho do Stollar foi
muito importante, e por isso a gente insistiu para que ele assinasse o
artigo conosco", diz Gorab, referindo-se ao estudo em edição recente da
revista científica "Chromosome Research".
Apesar da importância histórica de seus anticorpos, Stollar acabou
não avançando no estudo das triplas hélices. Por sorte, contudo, outro
coautor do estudo, José Mariano Amabis, também da USP, havia passado
uma temporada no laboratório do americano durante os anos 1980, e o
grupo resolveu tirar da geladeira os anticorpos de Stollar, por assim
dizer.
Para a análise, o grupo usou cromossomos (as estruturas enoveladas que abrigam o DNA) da mosca
Drosophila melanogaster, velho burro de carga dos laboratórios de biologia, e também o de outra mosca, a
Rhynchosciara americana,
famosa na ciência brasileira e mundial pela maneira peculiar como
regiões específicas do seu genoma são multiplicadas. "É possível obter
dela cromossomos gigantes, politênicos [formados por material genético
multiplicado e emendado, que não se separou por divisão da célula, como
ocorreria normalmente], com dimensões excepcionais", diz Gorab.
Isso facilita o estudo do material cromossômico. Um dos pioneiros da
genética brasileira, Crodowaldo Pavan (1919-2009), fez grande parte das
suas descobertas graças à mosca. "Aposto que ainda temos coisas
importantes a aprender com ela", afirma o pesquisador.
A aposta parece ter sido bem calibrada. O que o grupo viu realmente
indica a presença de regiões com hélices triplas no material genético
das duas moscas. "A grande pergunta que todo mundo quer responder é:
será que as triplas hélices estão presentes in vivo [no organismo em
seu estado vivo]? Nossos dados mostram que isso é possível", afirma
Gorab. Mas ainda há alguns senões.
Preparadas
O mais importante deles envolve um problema metodológico. Para poder
examinar os cromossomos das moscas, os pesquisadores precisaram
fixá-los, procedimento que envolve o emprego de álcool e ácido acético.
A fixação leva a mudanças no estado natural do DNA, o que poderia,
em tese, ser uma explicação alternativa para as triplas hélices.
Por isso, o objetivo da equipe agora é tornar a análise menos
invasiva, de modo a refletir o que acontece no organismo dos bichos. Se
as hélices triplas estiverem mesmo presentes ao natural, Gorab diz que
elas poderiam "emperrar" processos envolvendo o DNA.
"Elas seriam um impedimento para uma série de eventos, como
transcrição [passagem da informação do DNA para o RNA] e replicação
[multiplicação do material genético]", avalia. Seria, portanto, mais um
nível de sofisticação no processo já complicadíssimo de ativação e
desativação dos genes.
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u687190.shtml