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terça-feira, 27 de julho de 2010

Direito de todo mortal a um dia de fúria

27/07/2010 - 13h57

Controle emocional pode elevar nível de tensão, prejudicando a saúde física e mental

IRENE RUBERTI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

A sensação de calor percorre o corpo, o coração dispara, a mente fica confusa: ataque de raiva a caminho.
Manter esse tipo de emoção sob controle é visto como sinal de equilíbrio. Mas novos estudos apontam que evitar a explosão pode fazer mal, tornando a pessoa mais tensa e fechada.

Marcelo Justo/Folhapress
Na contramão do tão valorizado "controle emocional", especialistas defendem direito de todo mortal a um dia de fúria

Pesquisadores da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, entrevistaram jovens que estavam entrando na faculdade. Concluíram que os que receberam maiores notas por suprimir emoções tinham mais dificuldade para fazer amigos.
Em outro estudo, pessoas instruídas a demonstrar indiferença ao comentar um documentário sobre bombardeios não conseguiam disfarçar a tensão nas conversas. De acordo com o estudo, as pessoas desenvolvem estratégias para controlar o que expressam, e essas técnicas se tornam subconscientes.
Não esconder a raiva pode até ajudar no desenvolvimento profissional, dizem os pesquisadores. Só uma explosão pode ser capaz de demonstrar, em alguns casos, o quanto se foi ofendido.
"Às vezes, é preciso mostrar o grau de absurdo de uma situação reagindo com espanto. Mostrar que se está perdendo o controle é um caminho para o outro perceber que limites foram invadidos", diz a psicóloga e psicoterapeuta Suely Mizumoto.
Não significa transformar o "rodar a baiana" em padrão. "É preciso usar a tonalidade emocional certa para se fazer entender: o importante não é o que é dito, mas como é dito", afirma Mizumoto.
Fazer uso constante dos mecanismos de controle emocional eleva o nível de tensão, que se manifesta em dores, estresse ou são base de doenças psicossomáticas.
"Sempre que não damos vazão às emoções e sentimentos, não temos vida plena. Há um colapso -e o termo é esse mesmo- do nosso equilíbrio", afirma Elko Perissinotti, coordenador do grupo de resiliência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
A pessoa vai aos poucos se descaracterizando, por não lidar com conflitos e nunca discordar, diz Mizumoto. "O indivíduo pode chegar à depressão, fica triste com ele mesmo ao não revidar."
Qualquer posicionamento pode, por vezes, ser experimentado como oposição. "Isso obriga aquela pessoa que sente muita necessidade de se sentir aceita, a estar em constante posição de uma concordância aparente. Torna-se falsa para si mesma."
Às vezes, o ataque de fúria é desproporcional à situação que o causou porque foi alimentado por fatos anteriores, acumulados.
A auxiliar administrativa Marisa Massetti, 52, diz que prefere explodir a engolir sapo. "Até os 30, não era assim. Com o passar dos anos e os problemas que surgiram, aprendi a me defender."
Ela diz que procura sempre expor seu ponto de vista e conversar, mas, se for preciso, "arma um barraco".
"Reprimir a raiva causa um mal danado", afirma Vera Martins, mestre em comunicação e especialista em medicina comportamental.
Segundo ela, a pior forma de manejar emoções negativas é engolindo sapos. A reação ideal é a assertiva, que pode ser atrapalhada pelo medo. Medo de magoar os outros, criar conflitos, perder o emprego, por exemplo.
O trabalho é o ambiente mais fértil para que a explosão germine. "É o local onde a pessoa se sente mais ameaçada, cobrada", diz Vera, que dá consultoria de desenvolvimento em empresas.
A consultora fez uma pesquisa com 220 funcionários e detectou que 48% reagem de maneira defensiva: ou engolem sapos, ou são agressivos ou são dissimulados. "O problema é tomar decisões sob o efeito exclusivo da raiva, a pessoa se torna vulnerável."
Um estudo de Harvard mostra que a raiva pode ser benéfica para a carreira. Os empregados que não hesitam em defender seus pontos de vista são respeitados e lembrados para promoções.
Mas o resultado só é positivo se houver assertividade: acesso descontrolado de fúria não tem o mesmo efeito.
Editoria de Arte/Folhapress

FÚRIA CALCULADA
A modelo gaúcha Aline Garcia, 20, diz que não se deixa intimidar pelas pressões do mundo da moda. "O cliente fala o que ele espera de um trabalho, mas eu sempre digo o que eu penso", afirma.
"É preciso se expressar, sim, mas não se deve ficar calculando as reações. À medida que vamos ganhando maturidade, mais automatizada estará a expressão dos sentimentos", diz o psiquiatra Perissinotti, do HC.
O ser humano fica mais capacitado a controlar seus impulsos e suprimir suas emoções à medida que cresce.
Crianças usam as mãos para esconder um sorriso, mas um adulto consegue disfarçar suas expressões.
Também é possível escolher as emoções, prestando atenção a um elogio e ignorando uma crítica. Estudo da Universidade de Brandeis descobriu que pessoas com mais de 55 anos têm mais facilidade do que jovens para focar imagens positivas quando estão de mau humor.
Perissinotti diz que quanto maior a percepção da realidade, maior a flexibilidade para lidar com confrontos.
"Todas as pessoas buscam independência, liberdade e felicidade, mas é preciso se conformar com uma pequena cota de cada; quem não se dá conta de que as três condições não existem em plenitude acaba se decepcionando."
 http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/773340-controle-emocional-pode-elevar-nivel-de-tensao-prejudicando-a-saude-fisica-e-mental.shtml

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