domingo, 9 de junho de 2019

VOCÊ É UM(A) PROFESSOR(A) CONECTADO(A)?



Agora não tem mais jeito, não adianta fugir, as ferramentas digitais chegaram para ficar! Elas impulsionam a aprendizagem e são capazes de apoiar a aprendizagem de crianças, jovens e adultos ao transformar algumas práticas pedagógicas. Essas ferramentas se tornaram tão essenciais que a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteia a construção do currículo da Educação Básica, tornou o mundo digital uma competência de ensino que deve atravessar o currículo de todas as disciplinas, enfatizando seu uso reflexivo e ético.
O segredo está muito mais no “como usar” do que de fato em “o que”. É importante que o educador determine o objetivo e a finalidade para inserir os programas digitais em suas aulas e atividades. Quando falamos em ferramentas digitais, não estamos nos restringindo apenas aos aplicativos ou plataformas que podemos usar. 
As ferramentas servem tanto para sala de aula, quanto para a gestão de tarefas escolares. 
Com essas ferramentas é possível criar avaliações, desenvolver atividades para casa, criar cruzadinhas, quiz, montar planilhas... Além de serem ferramentas de colaboração que os alunos podem utilizar de forma simultânea, eles podem desenvolver habilidades de leitura, escrita, raciocínio lógico e matemático, além de trabalhar de uma forma natural com a colaboração e empatia.

Nesses novos tempos, o papel do professor diante de novas tecnologias é imprescindível, ele tornou-se o elo entre ensino/aprendizagem, ou melhor, ele facilita a aquisição do conhecimento a partir das ferramentas tecnológicas.

Fazer parte de uma nova perspectiva no ensino mundial e aperfeiçoar e me qualificar é o que todo educador deve sempre buscar. Através do Bootcamper level 2 consegui de forma colaborativa aprimorar e aprender, fazer novas perguntas a respeito do meu papel como educador. Novas perguntas surgirão com certeza e buscarei sempre novas respostas ou novas formas de responder a mesma pergunta. 
Agradeço a equipe do AMPLIFICA pelo belíssimo curso de aperfeiçoamento das ferramentas do Google for Education.
Agradeço também a todos os colegas de turma que fizeram parte desse curso.


 Quero agradecer: @amplificaoficial #bootcampamplifica


Valeu!!!


VOCÊ É UM(A) PROFESSOR(A) CONECTADO(A)?



terça-feira, 7 de maio de 2019

RENASCIMENTO DA CIÊNCIA PSICODÉLICA


O uso de substâncias com efeitos psicodélicos ocorre, provavelmente, há milhares de anos. Com a popularização desses compostos, no século 20, seu consumo se disseminou. Percebidas por muitos anos apenas como drogas de abuso, essas substâncias voltaram recentemente a ser estudadas. Mas é preciso acabar com o preconceito que as cerca e desburocratizar a pesquisa, de modo a definir com mais clareza seus riscos reais e seus possíveis benefícios para o tratamento de transtornos que causam sofrimento.

Substâncias com efeitos psicodélicos são consumidas em rituais místicos, religiosos e indígenas há, provavelmente, milhares de anos. No século 20, com a popularização dessas substâncias, seu consumo passou a ser mais disseminado.
Muitos compostos psicodélicos são encontrados na natureza, como a N,N-dimetiltriptamina (DMT), presente nas folhas da planta Psychotriaviridis, a psilocibina dos cogumelos do gênero Psilocybe, a mescalina, encontrada no cacto peiote (LophophoraWilliamsii), e a 5-metoxi-dimetiltriptamina (5-MeO-DMT), derivada da secreção produzida pelo sapo Bufo alvarius.
A dietilamida do ácido lisérgico (LSD) é o principal psicodélico de origem sintética. Construído a partir do ácido lisérgico proveniente do fungo Clavicepspurpurea, o LSD foi criado pelo químico suíço Albert Hofmann (1906-2008) em 1938. A psilocibina foi também isolada por Hofmann em 1958. A mescalina, usada em cerimônias na Igreja Nativa Americana (Native American Church), foi extraída do cacto peiote em 1989.


Embora diversas substâncias sejam capazes de promover alterações de percepção e consciência, para que um composto seja considerado um ‘psicodélico clássico’, ele deve ser capaz de se ligar e ativar um tipo especial de proteína no cérebro, um receptor para o neurotransmissor serotonina conhecido pela sigla 5-HT2A






Acredita-se que a ativação do receptor 5HT2Aem neurônios piramidais do córtex cerebral seja o fator responsável pelas distorções sensoriais, visões e fenômenos como expansão da consciência e dissolução do ego, todos eles associados à experiência psicodélica.
No Brasil, uma das principais formas de consumo de psicodélicos de ocorrência natural é a ingestão da Ayahuasca, um chá utilizado em rituais místico-religiosos por mais de 70 grupos indígenas da América do Sul e, desde 1930, por grupos religiosos, como o Santo Daime, a Barquinha e a União do Vegetal. Os efeitos descritos após sua ingestão incluem as alterações na percepção, introspecção, visões (denominadas ‘mirações’) e aumento de memórias autobiográficas.
A bebida é preparada pela fervura do cipó Banisteriopsiscaapicom as folhas da P. viridise ingerida na forma de chá. Embora o composto psicodélico dimetiltriptamina (DMT) seja proveniente das folhas usadas na mistura, os efeitos da Ayahuascadependem da interação entre os dois ingredientes. Isso porque a DMT, se ingerida sozinha, é degradada no trato gastrointestinal. A ingestão concomitante de componentes presentes no cipó, os alcaloides de β-carbolinas (como a harmina e a harmalina), previne a degradação da DMT, que atinge a circulação e chega ao cérebro, promovendo os seus efeitos tão particulares.

Era pré-proibição (1950-1960)

Apesar da data de início do interesse terapêutico por psicodélicos não ser conhecida com precisão, os anos que sucederam à descrição das propriedades psicoativas do LSD por Albert Hofmann podem ser considerados o início da ciência psicodélica moderna. Na década de 1940, terapias medicamentosas em psiquiatria eram relativamente escassas e, após a descoberta de seus efeitos psicoativos em 1943, a possibilidade do uso do LSD e de outros compostos psicodélicos no auxílio de transtornos mentais começou a ser cogitado. Além disso, sugeria-se que o uso de LSD seria capaz de resgatar memórias reprimidas e outros elementos do inconsciente, o que poderia ser útil em psicoterapias.
Na década de 1950, o laboratório Sandoz sintetizou o LSD e o distribuiu sem custo para psiquiatras interessados em testar seus benefícios. Essa atitude fez crescer o número de pesquisas. Entre as décadas de 1950 e 1960, centenas de trabalhos científicos foram publicados.
Pesquisas preliminares com pacientes com formas de depressão e ansiedade sugeriam potenciais benefícios do LSD quando administrado durante sessões de psicoterapia assistida. Da mesma forma, estudos indicavam que a terapia com LSD poderia diminuir o consumo abusivo de álcool.
Cabe mencionar, entretanto, que as pesquisas com compostos psicodélicos em meados do século 20 eram passíveis de crítica por diversos motivos. Nesse período, não era realizada a comparação entre grupos de pacientes e grupos-controle (em que indivíduos que não recebem a substância também são analisados, permitindo a avaliação do efeito placebo); a medição da ‘melhora’ do quadro dos pacientes era feita a partir de critérios totalmente subjetivos; o tamanho da amostra (número de pacientes no estudo) era pequeno para determinação de um efeito robusto; e não havia uma avaliação matemática adequada (análise estatística) que possibilitasse a comparação entre resultados. Dessa forma, embora promissoras, tais pesquisas não avaliaram de modo conclusivo o potencial terapêutico dos compostos psicodélicos.

O impacto da proibição sobre a pesquisa

Próximo à década de 1990, trabalhos científicos com mescalina, psilocibina e DMT em humanos podem ser considerados como marco histórico do renascimento da pesquisa com psicodélicos.







A partir de meados do século 20, o uso não-científico das substâncias psicodélicas aumentou consideravelmente, sobretudo em virtude de sua associação ao movimento de contracultura norte-americano. Por motivação política, muito mais do que justificativa médica ou científica, em 1970, os Estados Unidos passaram a classificar LSD, psilocibina e mescalina na categoria mais restritiva de drogas de abuso, criminalizando sua posse e seu consumo e decretando-as como desprovidas de qualquer valor terapêutico – o que certamente não se baseava em evidências científicas. A decisão norte-americana influenciou o restante do mundo e, em pouco tempo, os compostos psicodélicos foram demonizados em vários países, criando-se barreiras políticas, sociais e culturais que inviabilizaram por décadas a pesquisa de suas propriedades terapêuticas.
Próximo à década de 1990, trabalhos científicos com mescalina, psilocibina e DMT em humanos podem ser considerados como marco histórico do renascimento da pesquisa com psicodélicos. De lá para cá, o desenvolvimento de técnicas mais sofisticadas para o estudo do efeito de substâncias psicodélicas em seres humanos,
animais e células, aliado ao crescente questionamento das políticas de drogas, fez com que vivenciássemos atualmente o chamado ‘Renascimento da ciência psicodélica’.

Estudos com células e animais

A identificação de alvos moleculares foi o primeiro passo para tentar desvendar os efeitos de substâncias psicodélicas sobre nossas células. O receptor intracelular sigma-1 mostrou-se importante na modulação da resposta inflamatória ativada por DMT e 5-MeO-DMT (um composto aparentado) tanto em células especializadas do sistema imunológico quanto em neurônios.
Utilizando organoides cerebrais humanos (modelo 3D onde se recapitula em laboratório o desenvolvimento do tecido cerebral), pesquisadores de nossa equipe demonstraram que 5-MeO-DMT é capaz de regular a expressão de diversas proteínas celulares. O composto psicodélico mexe com a expressão de proteínas que controlam inflamação, além de regular também aquelas envolvidas na formação de sinapses (a base da comunicação entre os neurônios). Estudo recente publicado por um grupo da Califórnia confirmou que a DMT e outros compostos psicodélicos interferem na reorganização das sinapses, aumentando a complexidade dos neurônios.

Pesquisas em humanos

A partir de meados da década de 2000, pesquisas científicas têm voltado a comprovar o papel terapêutico de compostos psicodélicos em humanos. Em 2006, pesquisadores da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, descreveram o efeito benéfico da psilocibina em pacientes com transtorno obsessivo-compulsivo. Em 2014 e 2015, dois estudos realizados também nos Estados Unidos sugeriram que a administração de psilocibina seria eficaz também no tratamento da dependência por tabaco e álcool.
O efeito ansiolítico da psilocibina foi investigado ainda em pacientes com câncer. Cientistas da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, demonstraram que uma dose de psilocibina reduziu os sintomas de depressão e ansiedade por até seis meses. Outro estudo, publicado no mesmo ano, comparou o efeito de psilocibina com a niacina (vitamina B3, usada como controle). Os pacientes com câncer que receberam o composto psicodélico associado à psicoterapia apresentaram melhoras persistentes nos sintomas de ansiedade e depressão. A psilocibina também obteve resultados promissores para o tratamento de depressão em um estudo aberto – não controlado – realizado pelo Imperial College britânico.


Pesquisadores brasileiros têm destaque no estudo de psicodélicos, principalmente da Ayahuasca. Em um estudo não controlado, a Ayahuasca proporcionou melhora significativa em pacientes com depressão após a administração de uma única dose do chá, além da ativação de áreas do cérebro relacionadas à regulação de humor e emoções.

O efeito terapêutico do LSD foi investigado em um estudo com 12 pacientes que tinham ansiedade relacionada à presença de doenças crônicas ou risco de morte. Os participantes foram submetidos a sessões de psicoterapia frequentes e, em duas ocasiões, o LSD foi administrado. Os pacientes tratados com as doses mais altas apresentaram redução de ansiedade por até 12 meses. Nenhum efeito adverso severo foi relatado pelos pesquisadores que conduziram o estudo.
Mais recentemente, em um estudo de pesquisadores das universidades Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Estadual de Campinas (Unicamp) e de São Paulo (USP), realizado com controle por placebo e com um maior número de pacientes, o efeito antidepressivo da Ayahuascafoi confirmado.

Uma longa jornada

É importante lembrar, porém, que os trabalhos descritos acima representam apenas o início de uma longa jornada de conhecimento até que substâncias psicodélicas voltem a ter papel na medicina. Os testes em células, organoides e animais representam, na maior parte das vezes, o primeiro passo para a descoberta dos mecanismos de ação. Os testes em humanos ocorrem em diferentes fases, quando segurança e eficácia são avaliadas. Vale apontar, ainda, que nem todas as pessoas poderiam
se beneficiar, já que, por exemplo, portadores de transtorno bipolar ou psicose podem ter o agravamento de seus sintomas com o uso de tais compostos.
Se, por um lado, as pesquisas com compostos psicodélicos estão caminhando a passos largos, por outro, os obstáculos não são poucos e incluem não apenas aqueles científicos, mas principalmente políticos e culturais. Percebidos por muitos anos apenas como drogas de abuso, há ainda o desafio de desconstruir o preconceito contra essas poderosas substâncias e desburocratizar a pesquisa. Isso permitiria maior celeridade não só em definir com maior clareza seus riscos reais, mas também qual o papel dos psicodélicos no arsenal terapêutico para o cuidado e a cura de determinados sofrimentos humanos.


Fonte:

http://cienciahoje.org.br/artigo/renascimento-da-ciencia-psicodelica/

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Conversa sobre bactérias regada a cerveja

Conversa sobre bactérias regada a cerveja

Bate-papo descontraído sobre microrganismos benéficos ao corpo humano deu a largada para a edição brasileira do 'Pint of Science', festival internacional em que cientistas se reúnem com o público em bares, restaurantes e cafés para falar sobre temas científicos.


Pesquisadores da UFRJ e da Fiocruz se reuniram ontem (15/05) à noite em um bar no Maracanã (RJ) para conversar com um público animado sobre o papel benéfico desempenhado por várias bactérias em nosso organismo. (foto: Sidcley Lyra/ Universidade Federal do Rio de Janeiro)
Você sabia que há mais micróbios na Terra do que estrelas no universo? Essa informação surpreendeu muitos dos presentes ontem à noite em um bar do Rio de Janeiro. Num bar??!! Sim! O grupo estava reunido para uma das primeiras sessões do festival internacional de divulgação científica Pint of Science, que tem como objetivo proporcionar debates divertidos sobre os mais variados temas da ciência em um formato acessível para o público e em ambientes descontraídos, como bares, restaurantes e cafés.
Eram 19h30 e o bar Bento, no Maracanã (RJ), já estava repleto de pessoas, quase todas com um copo de cerveja na mão, prontas para participar de um bate-papo com o tema ‘Vilões ou heróis: microrganismos que habitam nosso corpo’. Os oradores também já brindavam e começaram lançando um desafio. Quem respondesse corretamente a cada uma das questões ganhava uma camisa alusiva ao festival. “Quantos micróbios existem na Terra?” e “Quantas estrelas existem no universo?” foram algumas das perguntas lançadas.
Temos no nosso organismo um número maior de bactérias do que de células!
Depois dessa animada gincana, o microbiólogo Leandro Araújo Lobo, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), começou a convocar a participação do público, dizendo: “Isto não é uma palestra ou um congresso! Isto é um bate-papo!”. E logo a seguir perguntou: “O que vem à cabeça de vocês quando se fala em bactérias?” Alguém gritou: “dor de garganta”; e outra pessoa disse: “doenças”. Mas os pesquisadores estavam ali para desmistificar essa associação. Na verdade, as bactérias são muito mais heroínas do que vilãs. Aliás, temos no nosso organismo um número maior de bactérias do que de células!
Um dos exemplos dados para ilustrar o impacto positivo das bactérias no nosso bem-estar é o fato de que os bebês que nascem de parto normal tendem a ter um nível de saúde geral melhor que os bebês que nascem por cesariana. E isso acontece porque, durante o parto, os bebês são expostos a uma grande quantidade de bactérias que vão colonizar o seu trato digestivo. Quando o bebê nasce por parto normal, acaba ingerindo diversas bactérias benéficas que advêm sobretudo do canal vaginal da mãe. Além de seu importante papel na proteção e defesa do organismo quando há colonização por organismos patogênicos (que causam doenças), essas bactérias auxiliam na absorção de nutrientes.



O modo como um bebê nasce se reflete na composição da sua microbiota (conjunto dos microrganismos que habitam o corpo) e isso tem impacto na sua saúde a longo prazo. (foto: Sander van der Wel/ Flickr – CC BY-SA 2.0)

Segundo o microbiólogo Luis Antunes, da Fundação Oswaldo Cruz, o transplante de microbiota vaginal da mãe para os bebês que nascem por cesariana vai ser algo bastante comum no futuro.  Hoje, o que está disponível é o transplante de microbiota fecal, que foi também discutido com bastante humor ontem à noite, ressalvando sempre os benefícios dessa técnica, sobretudo para os problemas gastrointestinais crônicos.

Bactérias no cardápio

Os participantes do evento também debateram algo que está muito na moda: o consumo de probióticos! Para aqueles que ainda não sabem, trata-se de organismos vivos que, quando administrados em quantidades apropriadas, conferem vantagens à saúde.


O kefir (à esquerda) e a kombucha (à direita), produtos obtidos a partir da fermentação de bebidas, são alimentos probióticos, ou seja, contêm microrganismos que trazem benefícios para a saúde. (fotos: Wikimedia Commons – CC0 e Ed Summers/ Flickr – CC BY 2.0)

Importante foi também fazer a distinção entre prebióticos e probióticos. Os prebióticos não são bactérias, mas sim nutrientes que servem para alimentar e estimular o crescimento de bactérias intestinais benéficas. Explicando melhor, trata-se sobretudo de fibras não digeríveis, mas que são fermentadas pelas bactérias do cólon (região do intestino).
O microbiólogo Marco Miguel, da UFRJ, salientou de imediato que devemos então comer vários alimentos ricos em fibras, como as verduras, já que são alimentos prebióticos. Sobre o consumo de prebióticos e probióticos em pó ou cápsulas como meio de suplementação, o melhor é procurar um profissional de saúde para avaliar essa necessidade e, em caso positivo, determinar a dosagem e o momento do dia que devem ser administrados.


Além das verduras, vários outros alimentos, como batata-doce, banana, cebola, alho e tomate, são naturalmente ricos em prebióticos, nutrientes capazes de estimular o crescimento de bactérias que melhoram o funcionamento do intestino. (fotos: Freeimages e Pixabay)


Mas uma grande dúvida ficou no ar quando alguém perguntou qual o impacto dos alimentos transgênicos (geneticamente modificados) na nossa microbiota. De fato, não é possível avaliar com precisão essa questão, pois não existem ainda as técnicas mais indicadas para tal, mas Miguel respondeu de imediato que os alimentos transgênicos, por serem algo tão novo e diferente, podem exterminar as formas selvagens de bactérias probióticas intestinais.
Antunes ressaltou que, apesar de não se saberem os efeitos a longo prazo do consumo desse tipo de alimento sobre a nossa microbiota, os transgênicos são muito importantes na nossa sociedade, pois promovem o abastecimento necessário para alimentar a atual população mundial.
Muitas outras questões interessantes e curiosas surgiram e, entre gargalhadas, brindes e partilhas de fatias de pizza, encerrou-se o bate-papo. No final, as bactérias benéficas que habitam o nosso corpo ganharam um novo protagonismo, tendo sido atribuído a elas o título de heroínas da noite!
Para quem se interessou em participar desse divertido debate sobre ciência, o Pint of Science acontece até 17 de maio em mais de 100 cidades espalhadas por 11 países! A entrada é gratuita. Confira a programação no Brasil na página do evento.

Margarida Martins
Instituto de Medicina Molecular (Lisboa/ Portugal)
Especial para CH On-line

 http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4924/n/conversa_sobre_bacterias_regada_a_cerveja

Parceria contra câncer e bactérias patogênicas

Parceria contra câncer e bactérias patogênicas

Resultados de estudos sobre os mecanismos de entrada das proteínas virais nas células, feitos por pesquisadores brasileiros e portugueses, deram origem a um projeto para o desenvolvimento de fármacos para o combate de diversas doenças.

O estudo das interações de proteínas virais com membranas celulares de organismos infectados pode contribuir para o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas para o combate ao câncer e a doenças causadas por bactérias. (foto: David Goodsell/ Wikimedia Commons – CC BY 4.0)

 
Há mais de 10 anos, o Laboratório de Bioquímica de Vírus do Instituto de Bioquímica Médica (IBqM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e o Laboratório de Bioquímica Física de Fármacos do Instituto de Medicina Molecular (iMM), em Lisboa, colaboram em estudos sobre a interação de proteínas virais e as membranas celulares. Resultados desses estudos deram origem a um projeto internacional – chamado Inpact – com o objetivo de desenvolver fármacos inéditos para combater aquela que é conhecida como a doença do século 21 – o câncer –, além de várias doenças infeciosas causadas por bactérias.
Entre os resultados dessa colaboração que serviram de base para a proposta do projeto Inpact está a descoberta de que uma proteína presente na camada que envolve o vírus da dengue é capaz de transportar moléculas que compõem o DNA e o RNA para o interior das células
Entre os resultados dessa colaboração que serviram de base para a proposta do projeto Inpact – que reúne instituições de cinco países – está a descoberta de que uma proteína presente na camada que envolve o vírus da dengue é capaz de transportar ácidos nucleicos (moléculas que compõem o DNA e o RNA) para o interior das células, sem que estas percam sua funcionalidade. Essa capacidade deve-se a certas características também desvendadas pelo mesmo grupo, como o fato de essas proteínas conseguirem atravessar as membranas celulares dos mamíferos.
O estudou, que resultou em um artigo publicado em 2013, contou também com a participação de pesquisadores do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ e do Departamento de Ciências Experimentais e da Saúde da Universidade Pompeu Fabra (Barcelona, Espanha).
As terapias baseadas no transporte de ácidos nucleicos ou de proteínas para o interior das células apresentam ainda algumas limitações. Portanto, a descoberta tem enorme potencial biomédico, já que essa proteína do vírus da dengue (chamada capsídica) pode facilitar a translocação de importantes moléculas com ação terapêutica através das membranas celulares e dar origem a tratamentos revolucionários tanto para câncer como para doenças causadas por bactérias.

Nova estratégia

Outro estudo da mesma equipe de pesquisadores e que também serviu de base para a criação do projeto Inpact buscou tornar economicamente viável e menos complexo o emprego de terapias que usam proteínas como agentes transportadores de fármacos. Para transportar os ácidos nucleicos, os pesquisadores propuseram usar apenas pequenos segmentos (peptídeos) que derivam da proteína capsídica do vírus da dengue – e não a proteína inteira –, pois eles são menores e mais fáceis de produzir.
Os resultados desse estudo, publicados em 2014, permitiram definir uma nova via de entrada de ácidos nucleicos para o interior das células. Tal descoberta poderá ser útil para o estabelecimento de tratamentos inovadores, visto que esses peptídeos derivados da proteína capsídica do vírus da dengue são potenciais candidatos a vetores para serem usados em terapias gênicas (em que se introduz material genético proveniente de outro organismo para prevenir ou tratar doenças).


Vários estudos sugerem que a terapia gênica poderá ser uma abordagem eficaz para determinados tipos de câncer. A proteína capsídica do vírus da dengue ou até mesmo pequenos segmentos dessa proteína são potencias candidatos a vetores nesse tipo de terapia. (foto: Pixabay – CC0)
Os resultados desses dois artigos do grupo foram posteriormente confirmados em um artigo de revisão, que foi publicado em 2015 por pesquisadores da UFRJ e do iMM e também serviu de base científica para a criação do projeto Inpact.
“Nessa revisão, compilamos e discutimos todos os achados acerca dos mecanismos de reconhecimento e entrada do vírus da dengue na célula hospedeira, ressaltando principalmente os dados da literatura, incluindo nossos próprios resultados, que corroboram nossa hipótese de que uma das proteínas do vírus [a proteína do capsídeo] tem um papel importante no transporte das moléculas que compõem o genoma do vírus através da membrana das células infectadas ”, explica a primeira autora do artigo, a bióloga Christine Cruz-Oliveira, do IBqM/UFRJ.
Apesar de o foco do projeto Inpact ser o uso dessa abordagem para desenvolver fármacos contra o câncer e doenças infeciosas causadas por bactérias, a descoberta dessa via de acesso às células pode ser empregada no combate a várias outras patologias.
Nas próximas semanas, você vai poder acompanhar alguns resultados já obtidos pelo projeto Inpact.

Margarida Martins
Instituto de Medicina Molecular (Lisboa/ Portugal)
Especial para CH On-line

http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4927/n/parceria_contra_cancer_e_bacterias_patogenicas

domingo, 14 de maio de 2017

Ecografia: tema transversal para o ensino médio

Ecografia: tema transversal para o ensino médio

A técnica popularmente conhecida como ultrassonografia, tão presente atualmente em nosso cotidiano, pode ser um ponto de partida promissor para a abordagem de conceitos científicos nas aulas de biologia e física. Nesta coluna, Carlos Alberto dos Santos mostra o caminho percorrido pela ecografia, desde seu surgimento até o sucesso de sua aplicação médica.

A ecografia, também conhecida como ultrassonografia, é hoje usada para observar qualquer órgão do corpo humano, mas está mais presente na cardiologia e obstetrícia. (foto: Alexandra Abreu/ Flickr – CC BY-NC-ND 2.0)
A ecografia é um recurso tecnológico presente em praticamente qualquer ambiente hospitalar e em muitos consultórios médicos. Surpreende que algo com essa presença em nosso cotidiano não mereça a devida atenção por parte dos autores de livros de física para o ensino médio. Para preencher essa lacuna, abordarei o assunto em duas colunas. Hoje tratarei do contexto médico-hospitalar e, na próxima coluna, apresentarei sugestões de intervenção didática em aulas de biologia e física.
Os nomes ecografia e ultrassonografia designam a mesma técnica, mas são ligeiramente diferentes na etimologia. Ecografia si
gnifica grafia do eco e ultrassonografia significa grafia do ultrassom. O interessante é que os dois termos são complementares em relação ao procedimento técnico usual, no qual tem-se eco do ultrassom. Ou seja, as imagens que vemos nos exames são provenientes de um eco, ou reflexão do som, quando emitido na frequência ultrassônica. A técnica é uma invenção humana, mas o uso desse fenômeno ocorre naturalmente nos morcegos e em alguns mamíferos marinhos, como o golfinho. Tratarei aqui apenas da técnica inventada pelo homem.
Usarei o recurso do mapa conceitual, elaborado com a ferramenta CMapTools, para orientar minha narrativa. Em coluna anterior, discuti como usar essa ferramenta para transformar textos de divulgação científica em plano de aula.

O mapa apresentado na figura foi elaborado a partir de dois artigos: ‘The interaction of physicians, physicists and industry in the development of echocardiography’, publicado em 1973 por Carl Hellmuth Hertz, um dos inventores da ecocardiografia, e ‘Evolution of Echocardiography’, publicado em 1996 por Harvey Feigenbaum, um dos responsáveis pelo renascimento da técnica, em 1963. O mapa é uma espécie de resenha gráfica do que consta na literatura, não apenas nos dois artigos citados.

O nascimento da técnica

A técnica que hoje conhecemos como ecocardiograma surgiu de um encontro casual entre dois estudantes de pós-graduação da Universidade de Lund (Suécia): o físico Carl Hertz, que usava ultrassom para a medida de distâncias, e o médico Inge Edler, que era responsável pelos diagnósticos que antecediam as cirurgias cardíacas. Ao longo da conversa, o médico perguntou ao físico se não havia algo como um radar que lhe permitisse fazer um diagnóstico mais preciso das enfermidades na válvula mitral para orientar procedimentos cirúrgicos.
A técnica que hoje conhecemos como ecocardiograma surgiu de um encontro casual entre dois estudantes de pós-graduação da Universidade de Lund
O ano era 1953, e a Tekniska Röntgencentralen, empresa alemã que realizava ensaios não destrutivos de materiais, havia acabado de adquirir um reflectoscópio de ultrassom. Hertz visitou a Tekniska para verificar se algum eco do seu coração seria observado por meio daquele equipamento. Com o resultado positivo, ele conseguiu o equipamento por empréstimo, para experimentá-lo durante um fim de semana no hospital de Lund.
Estava nascendo a ideia da ecocardiografia, mas sua consolidação exigiria muito esforço da dupla e da comunidade científica. Não tendo ainda o título de doutor, Hertz e Edler não podiam solicitar recursos para a compra dos equipamentos necessários ao ambicioso projeto, mas convenceram os diretores da Siemens a lhes emprestar um reflectoscópio que a empresa estava construindo para um cliente. Era para ficar um ano no hospital de Lund, mas terminou sendo doado pela Siemens.
Logo nos primeiros ensaios, eles conseguiram registrar simultaneamente sinais de ultrassom e eletrocardiograma. Edler percebeu a correlação entre os sinais e a obstrução da válvula mitral. O problema era que os resultados só eram evidentes em pacientes com severas enfermidades cardíacas. Sinais de pacientes saudáveis apresentavam baixa resolução, por causa da baixa sensibilidade do cristal de quartzo, o transdutor de ultrassom (dispositivo que transforma um sinal ultrassônico em sinal elétrico e vice-versa) usado na época. A situação alcançou um patamar superior quando, em 1956, a Siemens fabricou, especialmente para eles, um transdutor de titanato de bário, o precursor dos modernos transdutores.

Atravessando a rebentação

Depois que a técnica atingiu um nível aceitável na resolução dos sinais, permitindo a análise de vários órgãos, a comunidade científica passou a enfrentar a falta de conhecimento da interação do ultrassom com os diferentes tecidos humanos, o que dificultava a interpretação dos novos resultados. Paralelamente a esses estudos, pesquisadores no Japão demonstraram que sinais de efeito Doppler (fenômeno presente em ondas emitidas ou refletidas por um objeto que se movimenta em relação a um observador) podiam ser detectados em função do movimento das válvulas do coração e do fluxo sanguíneo.




Em A, primeiro reflectoscópio de ultrassom utilizado por Edler e Hertz. O equipamento havia sido produzido para uso industrial, de modo que os pesquisadores tiveram que adaptar uma câmara fotográfica na frente da tela para registrar os exames médicos. Em B, ecocardiógrafo moderno, com Doppler, em uso no Hospital do Coração de Natal. (fotos: A – Wikimedia Commons; B – Carlos Alberto dos Santos)


Entre o fim dos anos 1960 e o início dos 1970, ninguém seria capaz de prever o sucesso que a ultrassonografia faz nos dias atuais. O uso do efeito Doppler tão festejado e banalizado atualmente enfrentou o ceticismo da comunidade médica por mais de duas décadas. Só depois de meados dos anos 1970, a ecografia Doppler entrou na rotina clínica. Na verdade, o grande salto se deu no final daquela década, quando ficou demonstrado que dados hemodinâmicos podiam ser precisamente obtidos com o efeito Doppler.
Embora possa ser usada para observar qualquer órgão do corpo humano, é na cardiologia que a ecografia, sob a denominação de ecocardiograma, se faz presente com maior intensidade. E foi por meio da cardiologia que a ecografia tornou-se popular na obstetrícia. Com o objetivo de monitorar a pulsação fetal, os médicos desenvolveram o que genericamente denomina-se ecografia fetal ou ultrassonografia fetal, em meados dos anos 1960. O uso rotineiro da técnica na clínica médica teve início nos anos 1980 e, hoje em dia, é impensável o acompanhamento de uma gestação sem o uso sistemático da ecografia.
O estrondoso sucesso da técnica deve ser creditado às inovações tecnológicas na captação e no tratamento de imagens, uma arte que passa pela fabricação de incríveis transdutores para emissão e captação de ultrassom, pela matemática envolvida na transformação de sinais elétricos em imagens tridimensionais e pela eletrônica associada.
Graças à criatividade de engenheiros, físicos e matemáticos, os médicos contemporâneos têm à sua disposição um recurso não invasivo capaz de acompanhar visualmente a dinâmica do corpo humano em tempo real.

Carlos Alberto dos Santos
Professor aposentado do Instituto de Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor visitante da Universidade Federal Rural do Semi-árido (Ufersa)

http://www.cienciahoje.org.br/noticia/v/ler/id/4922/n/ecografia:_tema_transversal_para_o_ensino_medio

domingo, 13 de março de 2016

Qual a diferença entre teoria e lei? Por que a seleção natural de Darwin é teoria?

Qual a diferença entre teoria e lei? Por que a seleção natural de Darwin é teoria?

Confira a resposta para a questão enviada pelo leitor Emanuel Artiaga de Santiago Silva, de Belém (PA), na seção O leitor pergunta publicada na CH 333.
Por: Luiz Fernando Jardim Bento
Publicado em 04/03/2016 | Atualizado em 04/03/2016

Descritos por Darwin, tentilhões de Galápagos foram fundamentais para estabelecer relação entre processo de especiação e seleção natural. (imagem: domínio público/Wikimedia)

Em uma conversa com amigos podemos levantar uma teoria sobre os motivos da nossa grande derrota para a alemanha na última copa do mundo de futebol, sobre os rumos da crise econômica e outros infinitos temas relevantes. Seriam essas teorias válidas? Claro que sim! Mas não são teorias científicas. Na ciência, chamamos de teoria o que é fortemente embasado por diversas pesquisas feitas de forma independente por cientistas ao longo do tempo. Não é um mero palpite de mesa de bar. Além disso, uma teoria científica não chega à maturidade depois de fazer 18 anos e se transforma em lei.
Enquanto as teorias científicas explicam fenômenos da natureza, as leis são descrições generalistas desses fenômenos
Teoria não é uma versão menos confiável que uma lei, longe disso. Enquanto as teorias científicas explicam fenômenos da natureza, as leis são descrições generalistas desses fenômenos. São termos bem diferentes! Por exemplo, a evolução é uma teoria. Mas não é uma teoria qualquer. Segundo o biólogo alemão Ernst mayr (1904­2005), a evolução é uma teoria que se transformou em um fato devido à imensa quantidade de evidências que a suportam. É um fato, assim  como o fato de a Terra circular ao redor do Sol. Uma das suas mais importantes forças propulsoras é a teoria da seleção natural.
Enquanto podemos considerar a evolução como o fato de que o mundo não é constante e de que os organismos são transformados ao longo do tempo, a teoria da seleção  natural seria o mecanismo que explica, em grande parte, como essas constantes e graduais transformações ocorrem. As evidências de que a seleção natural é real e de extrema importância para a evolução biológica são incontáveis e de diversas áreas do conhecimento, desde históricas (registro fóssil) até experimentais (como descrito em bactérias e peixes). Então, podemos afirmar que sim, a seleção natural é uma teoria científica, e isso não diminui sua importância e seu embasamento científico. Bem diferente daquelas teorias que inventamos todos os dias...
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Luiz Fernando Jardim Bento
Museu Ciência e Vida
Fundação Centro de Ciências e Educação Superior à Distância do Estado do Rio de Janeiro


A biorremediação pode ser eficaz no rio Doce?


A biorremediação pode ser eficaz no rio Doce?

Procedimento que utiliza organismos naturalmente existentes para degradar substâncias tóxicas seria insuficiente diante de tragédia ambiental, diz especialista na seção O leitor pergunta da CH 333.
Por: Jean Remy Davee Guimarães
Publicado em 10/03/2016 | Atualizado em 10/03/2016


Vista parcial do rio Doce na cidade mineira de Governador Valadares. Segundo informações preliminares, pH da lama que contaminou o rio é extremamente alcalino. (foto: Wikimedia CC BY 3.0)


Segundo a EPA, a Agência de Proteção Ambiental norte-­americana, a biorremediação designa tratamentos que usam organismos naturalmente existentes no ambiente para degradar substâncias tóxicas em substâncias não tóxicas ou menos tóxicas. Parece muito virtuoso e esperto; mas, se uma indústria libera toneladas de rejeitos tóxicos  no ambiente, poderá não fazer absolutamente nada e argumentar que está fazendo um tratamento de biorremediação, isto é, permitindo que as bactérias naturalmente presentes no ambiente degradem o rejeito em questão. O processo poderá levar séculos e não degradar mais que uma fração do rejeito, ou, inclusive, transformar o rejeito em algo mais tóxico do que era originalmente, dependendo do tipo e da forma química dos poluentes presentes no rejeito.
Uma opção menos preguiçosa, barata e conveniente seria, por exemplo, isolar bactérias resistentes aos poluentes, que sejam também capazes de degradá-­los, cultivá-­las e reintroduzi-­las no ambiente contaminado, na esperança de que se comportem, naquele ambiente, do mesmo modo que no laboratório, o que nem sempre é o caso. Mas, sendo o caso ou não, é sempre positivo para a imagem das empresas poluidoras: afinal, estão tentando fazer algo e ainda usando técnicas ‘ecológicas’.
Plantas terrestres e aquáticas – como o aguapé – também podem ser úteis na biorremediação, extraindo metais e outros poluentes do solo ou da água. Isso, no entanto, só muda o problema de lugar, e resta decidir o que fazer com o aguapé contaminado: não pode ser consumido ou enterrado. Se contiver apenas metais como poluentes, pode ser queimado, mas as cinzas resultantes deverão ser segregadas  para evitar que os metais em questão voltem a circular pela biosfera. Convém lembrar o ensinamento do químico francês Antoine de Lavoisier: a matéria não se cria nem se perde, só muda de lugar e de estado físico-­químico.
O aguapé poderá talvez ajudar a melhorar algo da qualidade da água do rio, mas será absolutamente inútil para remover, e muito menos detoxificar, os 60 milhões de toneladas de rejeito sólido que a catástrofe despejou no rio Doce
No caso especifico da catástrofe ambiental do rio Doce, o volume de rejeitos que vazou equivale a um cubo de 391 m de lado. Informações preliminares indicam que o pH (grau de acidez) da lama seria 13; portanto, extremamente alcalino. Isso ilustra bem uma das limitações da biorremediação: não só é muito lenta e incerta como também só pode ser empregada se o material a biorremediar tem condições mínimas de abrigar alguma forma de vida – o que é duvidoso no caso dos rejeitos de mineração que praticamente colmataram a calha do rio Doce.
O aguapé poderá talvez ajudar a melhorar algo da qualidade da água do rio, mas será absolutamente inútil para remover, e muito menos detoxificar, os 60 milhões de toneladas de rejeito sólido que a catástrofe despejou no rio Doce e que, por sua quantidade e espessura, ficarão inacessíveis a plantas e outros organismos por tempos que podem ser geológicos de tão longos. Para a sociedade como um todo, prevenir é sempre mais vantajoso do que remediar. Para as empresas de mineração, nem sempre.
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Jean Remy Davee Guimarães 
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Universidade Federal do Rio de Janeiro

Câncer de mama na mira

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Câncer de mama na mira

Publicado em 12/03/2016

Na semana da mulher, CH Online conversa com pesquisadora da Unicamp sobre pesquisa que pode levar a biossensor para detecção de marcador presente em um quarto dos casos da doença.

Dispositivo desenvolvido na Unicamp pode detectar tumor de câncer de mama antes do surgimento de nódulos. (foto: Khuloud T. Al-Jamal e Izzat Suffian/Wellcome Images/CC BY 2.0)

Com o tamanho de uma moeda de cinquenta centavos, um dispositivo em fase de testes pode representar uma esperança considerável para a detecção precoce de alguns tipos de câncer de mama. Composto por um tipo de transistor à base de grafeno, o biossensor pode detectar em poucos minutos a presença de uma proteína que indica tumores mamários em pré-desenvolvimento, antes do surgimento de qualquer nódulo. 
Segundo a pesquisadora responsável pela pesquisa, a química Cecília de Carvalho Castro e Silva, do Instituto de Química da Universidade de Campinas (Unicamp), a proteína HER2, detectada pelo biossensor, está presente em cerca de 25% dos casos de câncer de mama. "Seria possível fazer uma predição do desenvolvimento do tumor de mama no estágio 0, no qual a quantidade de células cancerosas é relativamente pequena e concentrada”, explica a pesquisadora. “Assim, a mulher poderia ter um sinal de alerta para iniciar exames clínicos mais aprofundados e um tratamento precoce”, acredita Silva, que desenvolveu o dispositivo durante o doutorado sob a orientação do químico Lauro Tatsuo Kubota.
O dispositivo foi concebido a partir de pesquisas que apontaram a eficiência da proteína como um marcador para a doença. “Diversos estudos anteriores indicaram que o monitoramento no aumento do HER2 pode proporcionar um diagnóstico entre dois a nove meses antes dos sinais clínicos”. Para criar o biossensor, a pesquisadora fabricou um transistor de efeito de campo à base de grafeno. “Substituímos o silício pelo grafeno, o que trouxe uma sensibilidade elevada ao dispositivo”, relata Silva. Os anticorpos específicos para a interação com o biomarcador HER-2 são imobilizados na superfície do grafeno e, toda vez que a proteína se liga a estes anticorpos, há uma mudança na corrente do biossensor. “Assim podemos fazer uma relação com a concentração de HER-2 na amostra”, detalha a pesquisadora.
O biossensor projetado é tão sensível que pode detectar até 500 fentogramas (10-12) de HER2 por mililitro de sangue. De acordo com Silva, a concentração de uma paciente saudável seria de 12 nanogramas por mililitro, podendo evoluir para 15 nanogramas em pacientes de risco nas quais o HER2 atue como um marcador tumoral do câncer de mama. 

Diagnóstico com uma gota de sangue

O dispositivo ainda não foi testado em humanos, mas a expectativa é de que o diagnóstico possa ser realizado com apenas uma gota de sangue. Entre as etapas necessárias para transformar a tecnologia em realidade, segundo Silva, estão o desenvolvimento de dispositivos que permitam o monitoramento de mulheres em tempo real, como baterias biocompatíveis e miniaturizadas e um sistema de comunicação para o envio dos resultados. “No momento, nossa meta é conseguir realizar os testes clínicos e etapas de validação para comprovar a eficácia do sensor”, diz Silva. 0
Além do câncer de mama, a pesquisadora explica que o dispositivo poderia ser adaptado para o diagnóstico de outras doenças que possuam biomarcadores semelhantes
Além do câncer de mama, a pesquisadora explica que o dispositivo poderia ser adaptado para o diagnóstico de outras doenças que possuam biomarcadores semelhantes. “Podemos apenas mudar o anticorpo específico de reconhecimento e aplica-lo para a detecção de biomarcadores para tipos de câncer de ovário, próstata, pulmão ou até mesmo pacientes com risco de sofrer um infarto”, diz Silva.
Segundo a biofísica Eliana Abdelhay, que trabalha com marcadores biológicos do câncer de mama no Instituto Nacional do Câncer (Inca), a possibilidade de diagnósticos precoces e não invasivos é a maior contribuição do estudo. “A pesquisa demonstrou que os biomarcadores do câncer podem ser identificados em quantidades muito pequenas no sangue periférico das pacientes propiciando um diagnóstico não invasivo”, avalia. O câncer de mama é o mais frequente entre as mulheres de todo o mundo, com 8,2 milhões de mortes anuais, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Graças ao potencial da pesquisa, Silva, de 28 anos, foi eleita como uma das 30 personalidades brasileiras promissoras com menos de 30 anos segundo uma pesquisa da Forbes Brasil. Por coincidência, o reconhecimento veio pouco antes do Dia Internacional da Mulher. Para Silva, uma oportunidade a mais para discutir a participação feminina na ciência brasileira. “Nosso pais tem inúmeras mulheres produzindo ciência de excelente qualidade, porém elas precisam ser vistas e apoiadas de forma igual”, aponta.
Simone Evangelista
Especial para a CH Online

Kika : DILEMAS DA GESTAÇÃO



DILEMAS DA GESTAÇÃO

Surto faz quatro países da América Latina recomendarem evitar gravidez






CLÁUDIA COLLUCCI
DE SÃO PAULO
Com o aumento de casos de microcefalia em recém-nascidos no Brasil, governos de quatro países da América Latina e do Caribe (Colômbia, El Salvador, Equador e Jamaica), onde o vírus da zika já circula, passaram a recomendar que se evite engravidar.
O Brasil, no entanto, não adota a mesma orientação. Em novembro, Cláudio Maierovitch, diretor do departamento de vigilância de doenças transmissíveis do Ministério da Saúde, chegou a aconselhar as mulheres a não engravidar, mas o ministério divulgou nota logo depois negando a recomendação.
A pasta diz que "a gravidez é uma decisão pessoal" e que não adotará nenhuma medida de controle de natalidade.
Engravidar ou não é só uma das questões que enfrentam mulheres atualmente diante do avanço do vírus da zika (veja quadro com perguntas e respostas abaixo). A posição do governo divide especialistas.
"É um absurdo. Já passou da hora de o ministério fazer essa recomendação [não engravidar]. As mulheres que estão engravidando neste momento estão desesperadas", diz o médico Artur Timerman.
Infectologista, ele conta que, em uma semana, atendeu no consultório 14 gestantes preocupadas com a zika. "Vão ficar com esse fantasma rondando até o sexto mês de gravidez [quando a microcefalia aparece no ultrassom]."
Já o também infectologista Esper Kallas, professor da USP, afirma que não cabe ao governo decidir se a mulher deve ou não engravidar. "É preciso fornecer informações para que ela tome a decisão."
Ele pondera, por exemplo, que não adianta recomendar ou não a gravidez com base nos casos atuais de microcefalia, já que, quando aparecem, eles são uma fotografia do que ocorreu meses antes.
"É mais útil mapear a circulação do vírus em tempo real e alertar a população para os cuidados", diz ele.
A tendência entre os especialistas, porém, é orientar mulheres jovens a adiar a gravidez. "Para quem tem até 30 anos, não vai mudar esperar dois ou três meses até sabermos como vão evoluir esses casos de microcefalia", diz o obstetra Renato Kalil, do Hospital Albert Einstein.
"Se não precisa engravidar agora, é melhor esperar um pouco", reforça o ginecologista César Fernandes, presidente da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia. "Mas é complicado dizer isso às que estão no fim da vida reprodutiva."
Para as já grávidas, as principais recomendações são evitar áreas de infestação do Aedes, usar repelente, roupas leves e compridas, e instalar telas em portas e janelas.
"Todo o cuidado tem que ser tomado para evitar a exposição ao mosquito e a infecção pelo zika. Como a maioria dos casos [80%] é assintomática, muitas mulheres nem saberão se foram ou não infectadas", diz o obstetra Adolfo Liao, coordenador materno-infantil do Einstein.
As que manifestam sintomas podem recorrer a testes. O mais acessível, de biologia molecular, só funciona nos primeiros dias de infecção. O outro, que busca anticorpos do zika, custa R$ 900 em média e só está disponível em alguns laboratórios privados.
Após confirmada a zika, porém, não há o que fazer. Além de não existir remédio para curar a infecção, ainda não se sabe qual o risco real de o bebê desenvolver microcefalia.
No Nordeste do país, as alterações cerebrais dos fetos têm aparecido só por volta da 28ª semana de gestação.
"Fazendo um acompanhamento [com ultrassom] mais frequente, podemos identificar alterações mais cedo", afirma o obstetra Thomaz Gollop, professor da USP.
Já o obstetra Manoel Sarno, especialista em medicina fetal e que já acompanhou 80 casos de microcefalia associados à zika na Bahia, diz que será "improvável" o diagnóstico antes da 20ª semana.
Por isso, mulheres com diagnóstico de zika no início da gravidez têm recorrido ao aborto ilegal antes de saber se o feto tem microcefalia. Nessa fase há poucos riscos para a mulher. Quando a microcefalia é detectada, é mais difícil interromper a gravidez: é preciso causar a morte do feto, por meio de uma injeção no coração, para, depois, induzir o parto.
PERGUNTA E RESPOSTAS
1 - Estou grávida, e agora?
Procure um obstetra e faça um pré-natal com ao menos seis consultas. Para evitar o Aedes, elimine criadouros, vista roupas compridas e meias, instale telas em portas e janelas e use repelente. O mais indicado é o que tem icaridina (Exposis), pois dura até 10 horas
2 - Adianta eu me mudar para um lugar mais frio?
O risco diminui um pouco porque, em tese, há menos circulação de mosquitos. Mas saiba que o Aedes tem se adaptado a temperaturas mais baixas
3 - Como descubro se estou com zika?
A maioria dos casos é assintomática, mas, às vezes, o vírus pode causar dor de cabeça e nas articulações, vermelhidão e dor atrás dos olhos, febre baixa por 3 a 7 dias, vômitos, manchas vermelhas e coceira. O teste mais usado, o de biologia molecular, só funciona nos 5 ou 6 primeiros dias de infecção, quando o vírus ainda circula no sangue. Depois é indicado um exame que busca anticorpos de zika. Disponível na rede privada, custa em média R$ 900
4 - Se eu contrair o zika, qual é o risco de o bebê ter microcefalia?
Ainda não se sabe qual o percentual de gestantes com zika que acabam por ter filhos com microcefalia
5 - Qual é o período da gravidez com maior risco?
A suspeita é que o risco de microcefalia seja maior nos primeiros 3 meses. A possibilidade parece existir também, em menor grau, quando a zika é adquirida no 2º trimestre. A partir do 3º, o risco é baixo, pois o feto está formado
6 - Se eu tiver zika antes da gravidez, também corro o risco?
Ainda não se sabe se as mulheres que tiveram zika antes da gravidez adquirem imunidade e, portanto, não têm risco de passar o vírus para o feto. Mais estudos terão que ser feitos para se definir o intervalo seguro entre a infecção e a gravidez
7- Qual exame devo fazer para detectar a má-formação no bebê?
A microcefalia é diagnosticada na gravidez pelo ultrassom morfológico, exame que serve para medir o tamanho do crânio e avaliar as estruturas cerebrais e outros órgãos
8 - Quando é possível saber se o bebê tem ou não microcefalia?
Não há consenso sobre o prazo. Segundo os médicos, é recomendável que se faça o exame morfológico por volta da 22ª semana de gravidez. Se a mulher apresenta sintomas de zika, no entanto, o ideal é que se faça o ultrassom já a partir da 12ª semana mensalmente
9 - Por que eu não consigo saber mais cedo, no 1º trimestre de gestação?
Entre outros motivos, porque leva tempo entre a gestante ser infectada pelo vírus e ele causar danos no cérebro do bebê
10 - Encontrarei juízes dispostos a autorizar o aborto legal ou o chamado "terapêutico"?
Provavelmente, não. A vasta maioria dos casos de microcefalia não é incompatível com a vida, mesmo com as graves lesões cerebrais. Para autorizar o aborto, é preciso que três médicos atestem a impossibilidade de o bebê viver fora do útero
11 - Até quando posso abortar sem risco para a minha saúde?
Até a 14ª semana há menos risco de sangramento, embora nessa fase não seja possível saber se o feto tem ou não microcefalia. Mas a prática é ilegal
12 - Vou encontrar médicos dispostos a fazer um aborto clandestino?
Provavelmente sim, porque já existem relatos de abortos tanto no início da gestação (antes de confirmar a microcefalia) quanto depois da 20ª semana. Nesses casos, porém, tanto a mulher como o médico correm risco de detenção

Aedes aegypti

Saiba mais sobre o mosquito transmissor de várias doenças: de onde ele veio, como se reproduz e os principais sintomas


Zika



O que é o vírus zika?
É um vírus da família dos flavivirus, a mesma da dengue e da febre amarela. Foi isolado pela primeira vez em 1947 em primatas de Uganda, na floresta Zika. Por esse motivo tem essa denominação
Como é transmitido?
Nas cidades, principalmente por meio do Aedes aegypti, que também transmite a dengue e a chikungunya
Quais os sintomas?
Mais de 80% dos casos são assintomáticos, mas alguns dos sintomas que podem aparecer são febre e vermelhidão (veja infográfico), que geralmente desaparecem depois de 3 a 7 dias
O vírus zika também pode causar outros sintomas mais graves?
Em adultos, é possível que o zika cause a síndrome de Guillain-Barré, doença neurológica rara e paralisante. Há relato de casos após o contato com o vírus, mas a relação ainda não foi comprovada
O Aedes pode transmitir mais de um tipo de vírus na mesma picada?
Em tese sim, mas isso ainda não foi observado. Por outro lado, já houve o relato de uma coinfecção em um paciente de zika com dengue
Devo evitar viajar a lugares onde o zika circula?
Por ora, entidades como OMS (Organização Mundial da Saúde), OMT (Organização Mundial do Turismo) e o Ministério da Saúde brasileiro não fizeram alertas para que se não viaje a lugares com presença do vírus. Mas todas recomendam uso de repelentes, roupas que protegem o corpo e preservativos (há suspeita de transmissão sexual da doença), além da ventilação de ambientes e instalação de telas e mosquiteiros. Nos EUA, o CDC (agência de saúde local) recomendou a grávidas adiarem suas viagens
Quais são as regiões com mais casos da doença?
Hoje, o mosquito transmissor, o Aedes aegypti, está presente no mundo inteiro, embora haja uma maior ocorrência de zika nas Américas Central e do Sul (destaque para a Colômbia e Brasil, especialmente na região Nordeste. O mosquito costuma transitar mais em ambientes urbanos, onde há grande quantidade de pessoas e uma série de criadouros -em regiões afastadas, o risco é menor
http://temas.folha.uol.com.br/aedes/tire-suas-duvidas/zika.shtml

Viagem

Quais são as recomendações de viagens para as gestantes?
Especialistas ouvidos pela Folha aconselham que os turistas se informem sobre a condição epidemiológica do destino. No caso de mulheres grávidas, a recomendação é adiar a viagem, por causa da suposta ligação do vírus à microcefalia em bebês. A gestante deve consultar seu médico sobre medidas de prevenção e acompanhamento adicionais antes, durante e depois da viagem
Se a companhia se recusar a me ressarcir, a quem eu devo recorrer?
O Idec aconselha que o consumidor procure os órgãos de defesa do consumidor. Apesar de ainda não ter um posicionamento oficial sobre a obrigatoriedade de reembolso das empresas, o Procon afirma que estará à disposição dos consumidores e trabalhará para buscar, em cada caso, um acordo entre as partes
As companhias aéreas só reembolsam a viagem se eu estiver grávida?
Em geral, sim. Elas podem exigir uma declaração médica em que constem as semanas da gestação para fazer o cancelamento.
O que fazer se eu sentir sintomas durante a viagem?
O risco mais imediato da doença é a febre alta, que pode levar a convulsões. Médicos recomendam procurar um serviço de saúde imediatamente no caso de febre acima de 38ºC