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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Atlas do cérebro em 3D

21/06/2013 - 03h00

Atlas do cérebro em 3D mostra detalhe mais fino que cabelo

RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO

Um novo modelo tridimensional do cérebro humano criado por cientistas alemães e canadenses mapeou pela primeira vez um exemplar completo do órgão mostrando detalhes no limite daquilo que é visível a olho nu.
O mapa da iniciativa BigBrain, feito a partir do cérebro de uma mulher de 65 anos cujo corpo fora doado à ciência, faz parte do Projeto Europeu do Cérebro Humano, que tem como objetivo simular o funcionamento da mente humana em um computador.
Antes de servir a essa meta de longo prazo, porém, o mapa de precisão inédita pode ajudar na pesquisa de doenças degenerativas, por isso já está disponível gratuitamente na internet para pesquisadores e estudantes.
"Atingimos uma resolução de 20 micrômetros cúbicos, 50 vezes melhor do que a resolução típica de um atlas cerebral feito com ressonância magnética", disse em entrevista coletiva a neurocientista Katrin Amunts, da Universidade de Düsseldorf, na Alemanha, líder do projeto.
Para atingir tanta precisão no mapeamento, cientistas usaram um aparelho especial para cortar o cérebro-modelo, segmentando-o em 7.404 fatias (veja quadro à direita). O método foi descrito em estudo na revista "Science".
Essa técnica, porém, ainda resultou em algumas imperfeições, que tiveram de ser corrigidas por cientistas de forma semiartesanal, sem que houvesse processo automatizado para fazer todo o trabalho. O grupo levou mais de cinco anos na tarefa.
FERRAMENTA EXTRA
Apesar de o novo mapeamento superar a resolução de tecnologias automatizadas, a ideia não é suplantá-las. O novo modelo deve ser usado como referência para observar cérebros vivos com ferramentas similares à própria ressonância magnética.
"Para quem está interessado numa doença neurodegenerativa comum, como o alzheimer, este é o primeiro modelo cerebral no qual se pode olhar com tanto detalhe para o hipocampo humano, uma região cerebral extremamente importante para a memória", diz Karl Zilles, outro cientista do projeto na Universidade de Düsseldorf.
As outras instituições participantes da empreitada são a Universidade de Montreal, no Canadá, e o Instituto Max Planck para Ciências Cognitivas e do Cérebro Humano, de Leipzig, na Alemanha.
Apesar de ter atingido um grau de precisão sem precedentes, o novo mapa do projeto BigBrain ainda não possui resolução suficiente para enxergar neurônios individuais com clareza.
RUMO À SINAPSE
Segundo Amunts, o objetivo de longo prazo do instituto é conseguir produzir um mapa com precisão de 1 micrômetro: 20 vezes melhor que a atual. Ainda assim, não está claro se esse grau de precisão será suficiente para simular um cérebro em computador, algo que pode requerer a análise de todas as sinapses (conexões elétricas) de cada um dos neurônios.
As sinapses possuem tamanho da ordem de dezenas de nanômetros (milionésimos de milímetros) e podem estar além do alcance planejado para o BigBrain.
"Aquilo que estamos descrevendo está numa escala intermediária entre o nível das sinapses e o nível da neurociência de sistemas, que trata do cérebro inteiro", diz Alan Evans, da Universidade McGill. "O que o BigBrain oferece é uma estrutura para interligar esses dois mundos."
Editoria de Arte/Folhapress

http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/06/1298693-atlas-do-cerebro-em-3d-mostra-detalhe-mais-fino-que-cabelo.shtml


quarta-feira, 19 de junho de 2013

Senado aprova projeto de lei do Ato Médico

19/06/2013 - 00h00

Senado aprova projeto de lei do Ato Médico

JOHANNA NUBLAT
GABRIELA GUERREIRO
DE BRASÍLIA

O plenário do Senado aprovou, na noite desta terça-feira (18), o polêmico projeto de lei apelidado de Ato Médico. Após pouco mais de dez anos de discussão, a proposta segue para sanção da presidente Dilma Rousseff.
Ao regulamentar a profissão do médico, o texto colocou em lados opostos o CFM (Conselho Federal de Medicina), que apoia a proposta, e os conselhos de outras profissões da saúde, que veem no projeto uma restrição à sua prática diária.


Editoria de Arte/Folhapress





Ficam definidos como atos privativos do médico, por exemplo, o diagnóstico da doença e a respectiva prescrição terapêutica e a indicação e realização de cirurgias e procedimentos invasivos.
Esses procedimentos, segundo o texto, são a invasão da derme e epiderme com uso de produtos químicos ou abrasivos; invasão da pele que atinja o tecido subcutâneo para injeção, sucção, punção, drenagem ou instilação; ou ainda invasão dos orifícios naturais do corpo, atingindo órgãos internos.
Profissionais de outras áreas da saúde temem que, com essas definições, possam ficar restritas ao médico ações como a acupuntura, a realização do parto normal e a identificação de sintomas de doenças corriqueiras.
Por outro lado, o projeto especifica que não são privativos do médico os diagnósticos funcional, psicológico, nutricional e avaliações comportamentais.
O único ponto ainda em aberto é a decisão sobre realização e a emissão de laudo dos exames citopatológicos (como papanicolaou). Segundo a senadora Lúcia Vânia (PSDB-GO), uma das líderes do debate, o texto aprovado diz que essas ações não são privativas dos médicos. No entanto, a mesa do Senado entendeu que, de acordo com a votação, ficou decidida a exclusividade do médico na realização desses testes.
As medidas valem 60 dias após a lei entrar em vigor.










Para a senadora Lúcia Vânia, o projeto não relega outras profissões da saúde a uma categoria de inferioridade em relação ao médico.
"É evidente que esse projeto não se superpõe à legislação de quaisquer profissões da saúde regulamentadas."
O CFM sustenta que a intenção não é limitar as demais profissões, mas afirmar a necessidade da presença do médico em todos os locais.
O conselho argumentou, durante a tramitação, que não pode haver uma divisão econômica e social, em que parte da população tem seus procedimentos feitos por um médico, e outra parte, não.
Uma consequência desse projeto, segundo a entidade, é que todas as equipes de saúde da família deverão ter médicos --o que ocorre hoje em cerca de 50% dos casos, de acordo com o CFM.
Para o Conselho Federal de Enfermagem, o texto "mantém a formulação de uma organização hierárquica entre os que pensam e os que executam, a clara intenção de reserva de mercado e de garantia de espaço de poder sobre a atuação dos outros profissionais de saúde (...) reservando para a enfermagem a condição de subsidiária em atividades manuais sob prescrição e supervisão médica".

Genes humanos não podem ser patenteados

13/06/2013 - 23h50

Genes humanos não podem ser patenteados, decide Suprema Corte dos EUA

DAS AGÊNCIAS DE NOTÍCIAS
DE SÃO PAULO


Atualizado às 23h50.
A Suprema Corte dos EUA decidiu ontem que genes humanos não podem ser patenteados, o que pode afetar empresas de biotecnologia e baratear testes que se baseiam na procura de certas mutações no país e até no Brasil.
A decisão dos magistrados reverte três décadas de concessões de patentes pelo governo americano. No Brasil, não é permitido patentear seres vivos ou parte deles, o que inclui os genes.
O caso em discussão na Suprema Corte diz respeito ao registro de propriedade intelectual da empresa Myriad Genetics sobre os genes BRCA 1 e 2, cujas mutações indicam um risco maior de câncer de mama e ovário.
Editoria de Arte/Folhapress

O teste que procura essas mutações ganhou maior notoriedade recentemente, depois que a atriz Angelina Jolie, 37, revelou, em junho, ter se submetido a uma cirurgia de retirada das mamas após descobrir ter as mutações que aumentam o risco de desenvolver um tumor.
O exame é recomendado principalmente para as mulheres que têm câncer antes dos 45 anos. É possível também rastrear a mutação em outros membros da família para decidir sobre medidas preventivas, que incluem o uso de remédios , o acompanhamento com exames de imagem e até retirada preventiva de mamas e ovários.
O preço do exame é uma barreira ao seu acesso. Nos EUA, o custo fica em torno de US$ 3.000; no Brasil, ainda que não haja o impedimento da patente, o preço também é alto, chegando a R$ 8.000.
Com a decisão, espera-se uma queda nesses valores. "O reflexo vai ser imediato aqui. As empresas se guiam pelo preço cobrado no exterior", afirma Maria Isabel Achatz, diretora de oncogenética do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo.
Para David Schlesinger, geneticista e fundador do laboratório Mendelics, a identificação de genes únicos, como no teste BRCA 1 e 2, já está ficando obsoleta.
"Em vez de procurar genes específicos, agora se sabe que é mais vantajoso fazer um exoma [sequenciamento da parte do genoma que codifica proteínas] e ter um panorama geral do paciente."
BRECHA
Segundo a decisão, uma parte do DNA que ocorre naturalmente é um produto da natureza e não pode ser patenteado só por ter sido isolada pela empresa.
No entanto, o tribunal deu à Myriad uma vitória parcial, dizendo que o DNA complementar sintetizado em laboratório pode ser patenteado.
O chamado cDNA não acontece naturalmente. Grosso modo, é uma espécie de DNA que exclui as informações que não codificam proteína usada como parte do processo de desenvolvimento de alguns testes genéticos.
Os grupos que pedem o fim das patentes argumentam que a sequência dos nucleotídeos do cDNA segue a ordem imposta pela natureza e, por isso, não devem ser alvo de registros.
Para Fernando Soares, do Departamento de Patologia do A.C. Camargo Cancer Center, manter a patente do cDNA só deve ter impacto em questões de pesquisa e em análise de larga escala.
Envolvido no projeto do genoma do câncer, em 2002, o médico comemorou a decisão. "O genoma é um patrimônio da humanidade."

Estudo de assimetria ajuda tratamento de doenças

Estudo de assimetria ajuda tratamento de doenças

DO "NEW YORK TIMES"

Um dia, em 1788, os estudantes da Escola de Medicina Hunterian, em Londres, estavam abrindo um cadáver quando descobriram algo surpreendente. A anatomia do morto era uma imagem espelhada da que seria normal. Seu fígado ficava no lado esquerdo, em vez do direito. Seu coração tinha crescido no lado direito, não no esquerdo.
O relatório do professor da escola, o médico escocês Matthew Baillie, foi a primeira descrição detalhada dessa condição, que passou a ser conhecida como "situs inversus" e parece ocorrer em cerca de uma em cada 20 mil pessoas.
Baillie afirmou que a condição poderia ajudar os médicos a compreender como nossos corpos normalmente distinguem o lado direito do esquerdo.
As mutações que causam o "situs inversus" podem levar a vários distúrbios graves, incluindo defeitos cardíacos congênitos. Decifrar os efeitos de genes alterados poderia levar a diagnósticos e tratamentos dessas condições.
"Compreender como você monta esse eixo tem muitas implicações para a compreensão da doença cardíaca congênita", disse Rebecca Burdine, bióloga molecular na Universidade Princeton, em Nova Jersey.
Dominic P. Norris, biólogo do desenvolvimento no Conselho de Pesquisa Médica em Harwell, na Inglaterra, e outros cientistas estão começando a resolver esse quebra-cabeça. Eles identificaram alguns dos passos pelos quais os órgãos dos embriões se desenvolvem à direita ou à esquerda.
Nossos corpos começam simétricos, sendo o lado esquerdo um reflexo perfeito do direito.
A assimetria no corpo humano começa a aparecer depois de seis semanas de gestação. O coração é o primeiro órgão a se posicionar. Começando como um simples tubo, ele se inclina para a esquerda e mais tarde gera diversas câmaras e vasos de cada lado.
Mas essas mudanças visíveis surgem muito depois de o embrião ter desenvolvido diferenças à esquerda e à direita. Experiências revelaram que o embrião inicial produz proteínas diferentes de cada lado, embora ainda pareça simétrico.
Os biólogos identificaram o ponto exato em que essa simetria começa a se romper: um pequeno caroço chamado nódulo, na linha mediana do embrião. O interior do nódulo é forrado por centenas de pequenos pelos, chamados cílios, que giram em um ritmo de dez vezes por segundo.
"É como um liquidificador", disse o doutor Norris. "Não para de girar." Inclinados, os cílios empurram o fluido que envolve o embrião em uma direção, da direita para a esquerda. Quando os cientistas inverteram esse fluxo em embriões de ratos, aconteceu a formação de órgãos invertidos.
Quando o fluido começa a se movimentar, leva apenas três ou quatro horas para que os lados esquerdo e direito sejam definidos.
A borda do nódulo é cercada de cílios que reagem ao fluxo sem girar. "Não sabemos os detalhes e a verdadeira mecânica do que acontece nessas células."
Os cílios podem então liberar átomos de cálcio que se espalham para as células circundantes. Estas reagem emitindo uma proteína chamada nodal, que se espalha pelo lado esquerdo do embrião, deixando-o inundado de nodal.

Jonathon Rosen/The New York Times


Pessoas com a mutação têm órgãos em posição invertida


"A nodal parece dizer diretamente às células do lado esquerdo para que se movam mais depressa que as da direita", disse a doutora Burdine.
As células rápidas do lado esquerdo puxam todo o coração no sentido horário. A partir desse giro inicial, o coração desenvolve seus lados esquerdo e direito diferenciados.
Alguns estudos sugerem que esses primeiros sinais também influenciam o desenvolvimento cerebral.
Os cientistas sabem, há muito tempo, que os dois lados do cérebro humano têm algumas diferenças importantes. O hemisfério direito, por exemplo, tem uma grande função na compreensão da vida mental das outras pessoas, já o hemisfério esquerdo é importante para focalizar a atenção.
Enquanto observam esses sinais biológicos, os cientistas também estudam distúrbios que podem estar ligados à sua desordem.
"Situs inversus", a inversão total dos órgãos que Baillie descreveu em 1788, talvez seja o distúrbio mais drástico, mas também é um dos menos prejudiciais.
A inversão é relativamente segura porque todos os órgãos se alinham. O verdadeiro perigo está nas inversões incompletas -"quando fica uma confusão, e as coisas não se ligam adequadamente", disse o doutor Norris.
Os casos mais preocupantes são os que afetam o coração. "Se o coração estiver no lugar errado, e todo o resto estiver certo, é quase sempre fatal", disse a doutora Burdine.
Ela espera que a pesquisa sobre os distúrbios de esquerda e direita leve a testes genéticos capazes de prever o risco de defeitos cardíacos ocultos. Ela até vê uma aplicação nas tentativas de reconstruir corações danificados com células-tronco.
"Vai ser mais que apenas fazer as células certas", disse ela, acrescentando que elas teriam de ser colocadas na estrutura tridimensional adequada e receber os sinais corretos sobre aonde ir.
"E um desses sinais é o sinal de direita/esquerda", disse.
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/06/1296439-estudo-de-assimetria-ajuda-tratamento-de-doencas.shtml