sexta-feira, 25 de outubro de 2013

O primeiro crustáceo venenoso, uma criatura que parece uma centopeia

Cientistas encontram primeiro crustáceo venenoso

DA BBC BRASIL

Cientistas encontraram o primeiro crustáceo venenoso, uma criatura que parece uma centopeia e vive em cavernas submarinas no Caribe, nas Ilhas Canárias, e na costa oeste da Austrália, e se alimenta de outros crustáceos.
A espécie cega usa um composto que derrete suas presas, semelhante ao veneno da cobra cascavel. O veneno contém um coquetel complexo de toxinas, incluindo enzimas e um agente paralisante.
A descoberta foi divulgada na publicação científica "Molecular Biology and Evolution".
O crustáceo rompe os tecidos do corpo da presa com seu veneno e suga o líquido de seu exoesqueleto.

Bjorn von Reumont/Natural History Museum
Crustáceo venenoso encontrado por cientistas vive em cavernas submarinas no Caribe, nas Ilhas Canárias e na Austrália
"Eles têm pernas robustas e preênseis, que lembram agulhas hipodérmicas" disse à Ronald Jenner, coautor do estudo e zoologista no Museu de História Natural de Londres.
"As pontas das pernas são ocas e têm uma abertura, como nas agulhas. Essas pernas contém um reservatório de veneno rodeado por músculos. Acreditamos que quando esses músculos se contraem, o veneno é empurrado e injetado na presa."
ANIMAIS PEÇONHENTOS
"Os resultados desse estudo ajudam a melhorar a nossa compreensão sobre a evolução dos venenos dos animais", disse Jenner.
"Essa técnica de se alimentar, semelhante a de uma aranha, é única entre crustáceos. Esse veneno é claramente uma forma de adaptação para essa espécie cega que vive em cavernas pobres em nutrientes."
O grupo dos crustáceos é bastante numeroso e faz parte do filo de animais invertebrados artrópodes. Entre os crustáceos estão o camarão, a lagosta e o caranguejo.
A maioria vive na água, mas alguns, como o oniscídea, ou tatu-bola como é conhecido popularmente, vivem na terra.
Bjoern von Reumont, também do Museu de História Natural, comentou: "Esta é a primeira vez que vimos veneno sendo usado em crustáceos, e o estudo adiciona um novo grupo importante para a lista de animais peçonhentos".
"Venenos são especialmente comuns em três dos quatro principais grupos de artrópodes, como insetos. Crustáceos, no entanto, são uma notável exceção à regra."
"Apesar da variedade, até hoje não se conhecia nenhuma das cerca de 70 mil espécies descritas de crustáceos como sendo venenosa", disse von Reumont.


Homem evolui mais devagar que macaco, diz estudo

Homem evolui mais devagar que macaco, diz estudo

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RAFAEL GARCIA
DE SÃO PAULO

A comparação da atividade genética de humanos com a de chimpanzés sugere que o Homo sapiens está evoluindo de forma mais lenta que os macacos. A descoberta foi feita por cientistas que investigam por que o homem e seu primo mais próximo são tão diferentes, apesar de terem 98% do DNA idêntico.
O segredo das diferenças físicas e comportamentais está em quais genes são de fato ativos em cada espécie. Analisando células embrionárias, a brasileira Carolina Marchetto, do Instituto Salk, de San Diego (EUA), descobriu mecanismos que freiam a taxa de transformação genética da espécie humana.
A descoberta favorece a hipótese de que o advento da cultura desacelerou a evolução biológica: uma vez que humanos se adaptam a distintos ambientes usando o conhecimento, nossa espécie não depende mais tanto de variação genética para evoluir e sobreviver a mudanças.
Já os macacos, mamíferos de cognição mais limitada, precisam que seu DNA evolua de forma rápida para sobreviver a mudanças: eles não têm como compensar a falta de características inatas necessárias usando apenas conhecimento e tecnologia.
Mas o DNA humano também não carece de evoluir? "Não sabemos o que estamos pagando por isso em termos de adaptação, mas por enquanto funciona de forma eficiente", diz Marchetto.
O trabalho da cientista, descrito hoje na revista "Nature", ajuda a explicar o mistério da maior diversidade do DNA símio. Um leigo pode achar que todos os chimpanzés são iguais, mas uma só colônia selvagem desses macacos na África tem mais variabilidade genética do que toda a humanidade.

Alex Argozino/Editoria de Arte/Folhapress
O PULO DO GENE
Segundo o estudo de Marcheto, a maior variabilidade genética dos macacos tem a ver com os chamados transpósons, genes que saltam de um lugar para outro dos cromossomos. Nesse processo, os transpósons reorganizam o genoma, ativando alguns genes e desativando outros.
Esses "genes saltadores" são bastante ativos em chimpanzés e bonobos (macacos igualmente próximos da linhagem humana). Em humanos, o transpóson é suprimido por dois outros genes que são ativados em abundância e inibem o "pulo" genético.
Chimpanzés, de certa forma, precisam de transpósons. Com ferramentas rudimentares e sem linguagem para transmitir conhecimento, eles têm de oferecer maior variabilidade genética à seleção natural para que ela os torne mais bem adaptados, caso o ambiente se altere.
A pesquisa de Marchetto só foi possível porque seu o laboratório no Salk, liderado pelo biólogo Fred Gage, domina a técnica de reverter células ao estágio embrionário.
O material usado na pesquisa foi extraído da pele de macacos e pessoas, pois há uma série de limitações para o uso de embriões em experimentos científicos.
Revertido ao estágio de "células pluripotentes induzidas", o tecido cutâneo se comporta como embrião, e é possível investigar a biologia molecular dos estágios iniciais do desenvolvimento, quando o surgimento de diversidade genética tem consequências futuras.
"Uma das coisas especiais do nosso estudo é que a reprogramação de células de chimpanzés e bonobos nos dá um modelo para começar a estudar questões evolutivas que antes não tínhamos como abordar", diz Marchetto.
RUMO AO CÉREBRO
As diferenças de ativação de genes entre humanos e chimpanzés, explica, não se restringem a células embrionárias. A ideia de Marcheto e de seus colegas agora é transformar essas células em neurônios, por exemplo, para entender como a biologia molecular de ambos se altera durante a formação do cérebro.
http://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2013/10/1361208-homem-evolui-mais-devagar-que-macaco-diz-estudo.shtml

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Relação planta animal. A importância de cada organismo no nosso planeta.


31/05/2013 - 02h55

Sumiço de tucano prejudica árvores da mata atlântica

GIULIANA MIRANDA
DE SÃO PAULO

O desaparecimento de pássaros grandes, como tucanos e arapongas, tem consequências muito mais graves do que se pensava.
Pesquisadores brasileiros viram que o sumiço desses animais em pontos da mata atlântica pode afetar a evolução das árvores na floresta.
Isso acontece por um motivo aparentemente banal: como essas aves têm o bico grande, conseguem comer --e, consequentemente, espalhar-- sementes maiores.
Quando só restam as de bico pequeno, como o sabiá-una, só as sementes menores são dispersadas.
Essa mudança exerce pressão sobre a evolução das plantas. Cada vez mais, apenas as que têm sementes pequenas se reproduzem, levando as gerações seguintes a também serem assim.
"As sementes menores são menos resistentes à seca. Em alguns casos, basta uma redução de 20% na quantidade de água para que elas não germinem", afirma Mauro Galetti, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) e líder do trabalho publicado na "Science".
Com o aquecimento global, a tendência é que os períodos de seca se intensifiquem. Com a mudança das sementes, a floresta fica ainda mais vulnerável.
Há décadas estudioso da dinâmica de dispersão de sementes, Galetti aproveitou o extenso conhecimento e seu banco de dados sobre a palmeira chamada de palmito-juçara (Euterpe edulis) para desenvolver seu trabalho.
Ele e um grupo de cientistas analisaram diversos aspectos da planta em 22 áreas da mata atlântica no país.
O bioma é o mais afetado pelo desmatamento no Brasil, restando hoje só cerca de 12% da sua cobertura original. A maioria dessas áreas --quase 80%-- está fragmentada demais para que as grandes aves frugívoras sobrevivam. Já as pequenas conseguem resistir mesmo em áreas menores.
Além disso, as aves grandes também sofrem com a caça e a captura ilegal.
"Há muito já sabemos que essas aves têm um papel importante. A novidade é que as mudanças estão acontecendo em um ritmo muito acelerado. E é uma mudança evolutiva, não só ecológica", diz Galetti.
Segundo o pesquisador, o fato de o palmito-juçara ter um ciclo de vida mais rápido ajudou os cientistas a notar essa influência. No caso de árvores cujo desenvolvimento leva mais tempo, como as da floresta amazônica, demoraria mais para que o fenômeno fosse percebido.
Embora o trabalho tenha sido feito na mata atlântica, os pesquisadores não descartam que essas mudanças possam ocorrer também na Amazônia, uma vez que a queda no número de grandes aves é observada em vária regiões.
"Mesmo se as populações de grandes pássaros voltarem a crescer, já não há como alterar a questão das sementes, pois não haverá mais o genótipo da planta de semente grande para ser reproduzido. Pode ser, sim, um caminho sem volta."

Editoria de Arte/Folhapress
http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2013/05/1287620-sumico-de-tucano-prejudica-arvores-da-mata-atlantica.shtml

Salvador é a 3ª capital com maior incidência de tuberculose

Salvador é a 3ª capital com maior incidência de tuberculose

Cláudio Bandeira
Febre, hemoptise, dispneia e suores noturnos/ A vida inteira que podia ter sido e que não foi/ Tosse, tosse, tosse. O poema de Manuel Bandeira define o drama enfrentado por milhares de pessoas que padeceram ao longo da vida com a tuberculose.
Sem tratamento eficaz, a única coisa a fazer então era, como define o poeta, "tocar um tango argentino".
Atualmente, apesar de haver medicamentos, que asseguram um margem de quase 100% de cura, e um programa de diagnóstico e distribuição de remédios que consomem R$ 70 milhões por ano no País, a doença não deixou de ser algo do passado e continua matando.
Os desafios e avanços no enfrentamento da doença são debatidos  por gestores e especialistas dos governos federal, estadual e municipal no IV Encontro de Pesquisa em Tuberculose, promovido pelo Instituto de Saúde Coletiva da Ufba (ISC-Ufba)  em parceria com o Ibit, que prossegue até esta sexta-feira, 26, no Salão Nobre da Reitoria da Ufba. 
A tuberculose é a quarta causa de morte por doenças infecciosas no Brasil e a primeira em pacientes com Aids. Em 2012, foram registrados 70 mil novos casos e cerca de cinco mil mortes.
Salvador é a terceira capital em número de casos, com uma média de três mil a cada ano, segundo estatísticas do Ministério da Saúde (MS), que considera o município prioridade no combate à doença.
"Na Bahia, no início da década, era uma média de sete mil casos por ano. Em 2012, foram 4.980",  destaca a técnica do programa estadual de combate à tuberculose da Secretaria  da Saúde (Sesab), Rosângela Palheta. 
A taxa de incidência é de 37,3 casos a cada 100 mil habitantes, e a de mortalidade, segundo o MS, está em torno de 2,4/100 mil. Se comparado com 2001, houve  uma diminuição de 22,6% dos casos. Mas o número de óbitos  permanece alto.
Resistência - Agravada pela pandemia do vírus HIV, causador da Aids, a tuberculose mata globalmente 1,7 milhão por ano, e o abandono do tratamento antes do prazo de cura - que é de seis meses -  tem permitido que cepas do bacilo de Koch, o causador da doença,  adquiram resistência aos antibióticos disponíveis.
Segundo estimativa da Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população global está infectada, embora nem todos venham a adquirir a doença. "Para cada 100 contaminados, cinco vão desenvolver a tuberculose",  estima o coordenador do Centro de Pesquisas do Ibit e  professor da Ufba, o médico Eduardo Martins Netto.
Apesar de prevalente em situação de pobreza e desnutrição, faz vítimas em todas as classes sociais, já que é transmitida essencialmente pela tosse. Pode-se pegar no ônibus,  avião,  ambientes sem ventilação, entre outros.
Entre as populações mais vulneráveis estão: indígenas (quatro vezes), população carcerária (27), PVHA (portadores de HIV, 30) e moradores de rua (67).
Especialistas identificam falhas no programa de combate à doença, cuja taxa de cura está em 65%, enquanto em instituições como o Ibit, que  presta na atual gestão consultoria à Secretaria Municipal da Saúde da Cidade de São Paulo, esta taxa chega a 90%.
Entre os problemas está o precário acompanhamento do paciente, que, quando constata uma melhora inicial, costuma abandonar o tratamento.  O médico Eduardo Martins Netto vê no problema  uma das causas da resistência aos antibióticos.
Para Rosângela Palheta, a deficiência no acompanhamento surge da precariedade do vínculo dos profissionais de saúde da família que costumam migrar para outras regiões em busca de melhores oportunidades.
A superintendente do Ibit, Leila Brito, explica que um dos pontos-chave para evitar o abandono é o acompanhamento. "Quando o paciente não aparece na unidade, ligamos, fazemos visita à casa ou enviamos um telegrama", modelo que deveria ser copiado pelo poder público.
Novo medicamento - "Há 50 anos não se lançava uma nova droga para o combate da tuberculose, o que ocorreu no final do ano passado", conta o médico Eduardo Martins Netto.
Trata-se da bedaquilina -  que recebeu no início deste ano o registro da agência reguladora norte-americana FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos). Desde de 1963, nada de novo havia surgido nesta especialidade farmacêutica.
A busca de um determinante sorológico que permita diagnosticar em poucas horas a contaminação pelo bacilo de Koch é um dos esforços no combate à doença que vêm sendo desenvolvidos por pesquisadores da Fiocruz-Bahia em parceria com outros países.
Atualmente, a baciloscopia pode demorar até 48 horas, e a cultura, entre 30 a 40 dias, prazos considerados longos para uma enfermidade que é transmitida basicamente pela tosse e tem um alto poder de contágio.
O pesquisador da Fiocruz-BA, Sérgio Arruda, trabalha na identificação  de um determinante sorológico de baixo custo, eficaz e que reduza  o tempo de resultado dos exames atualmente disponíveis. "A ideia é que tão logo fosse diagnosticado o contágio se procedesse ao tratamento".

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Guerra não é herança evolutiva dos humanos



Guerra não é herança evolutiva dos humanos

Pesquisadores concluem que a prática do confronto não é inata nem inevitável



Por John Horgan
uma das mais insidiosas ideias modernas sustenta que a guerra é inata, uma adaptação criada em nossos ancestrais pela seleção natural. Essa hipótese – vamos chamá-la de “Teoria da Guerra com Raízes Profundas” – já foi promovida por intelectuais respeitáveis como Steven Pinker, Edward Wilson, Jared Diamond, Richard Wrangham, Francis Fukuyama e David Brooks.

A Teoria das Raízes Profundas aborda não apenas a agressão humana violenta em geral, mas uma manifestação específica dela, envolvendo ataques de um grupo contra o outro.

Os adeptos da teoria frequentemente argumentam que – por mais belicosos que sejamos atualmente – nós éramos ainda mais belicosos antes do advento da civilização.

 Pinker alega em seu bestseller, Better Angels of Our Nature (Os anjos bons de nossa Natureza, em tradução livre), que “ataques e disputas crônicas caracterizam a vida em um estado natural” . Em The Social Conquest of the Earth (A Conquista Social da Terra), Wilson chama a guerra de “maldição hereditária da humanidade”.

A Teoria das Raízes Profundas se tornou extraordinariamente popular, especialmente considerando as evidências para ela são extraordinariamente fracas.

Um estudo publicado em 18 de julho na Science, “Lethal Aggresion in Mobile Forager Bandas and Implications for the Origins of War”, fornece contra-evidências para a Teoria das Raízes Profundas.

Os autores do estudo, os antropólogos Douglas Fry e Patrik Soderberg da Universidade Abo Akademi, na Finlândia, declaram que seus descobertas “contradizem afirmações recentes de que coletores nômades se engajavam regularmente em guerras de coalisão contra outros grupos”.

Fry e Soderberg se concentram em bandos de coletores com grande mobilidade, também chamados de caçadores-coletores nômades, porque se acredita que seu comportamento forneça uma janela para a evolução humana.

Nossos ancestrais viveram como coletores nômades desde a emergência do gênero Homo há cerca de dois milhões de anos até aproximadamente 10 mil anos atrás, quando humanos começaram a plantar, domesticar animais e se estabelecer em sociedades hierárquicas mais complexas.

Fry e Soderberg examinaram dados de violência mortal em 21 sociedades coletoras observadas por etnógrafos.

As sociedades incluem os Aranda e Tiwi, da Austrália, os Kaska, Kitlinermiut, e Montagnais da América do Norte; os Botocudo da América do Sul, os Kung, Haza e Mbuti da África; e os Vedda e Andamanese do Sul do Ásia.

Fry e Soderberg regisram um total de 148 “eventos de agressão letal” nessas sociedades.




 A cena do “macaco assassino” no filme de Stanley Kubrick, 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968), não tem base em fatos.


Os pesquisadores distinguem entre a violência envolvendo pessoas que pertencem ao mesmo grupo, frequentemente aparentados, e a violência entre pessoas em grupos diferentes. Eles também distinguem entre a violência envolvendo apenas um perpetrador e vítima e a violência envolvendo pelo menos dois assassinos e duas vítimas.

Essas distinções são cruciais, porque a guerra, por definição, é uma atividade em grupo.

Os defensores da teoria "raízes profundas" frequentemente consideram todas as formas de violência mortal, não apenas a violência em grupo, como evidência para sua teoria. (Eles frequentemente também contabilizam a violência em sociedades que praticam a horticultura, como os Ianomami da Amazônia, mesmo que a horticultura seja uma invenção humana relativamente recente.)

Das 21 sociedades examinadas por Fry e Soderberg, em três não encontraram registro de morte de nenhum tipo, e em 10 não havia mortes provocadas por mais de um perpetrador.

Em apenas seis sociedades os etnógrafos registram mortes que envolveram dois ou mais perpetradores e duas ou mais vítimas. Uma única sociedade, no entanto, os Tiwi da Austrália, foi responsável por quase todas essas mortes em grupo.

Alguns outros pontos de interesse: 96% dos assassinos eram do sexo masculino.

Isso não é surpresa. Mas alguns leitores podem se surprender com o fato de que apenas duas de 148 mortes se originaram de luta por “recursos”, como áreas de caça, fontes de água ou árvores de frutos.

Nove episódios de agressão letal envolveram maridos matando esposas; três envolveram a “execução” de um indivíduo por outros membros de seu grupo; sete envolveram a execução de “estranhos”, como colonizadores ou missionários.

A maioria das mortes veio do que Fry e Soderberg categorizam como “disputas pessoais diversas”, envolvendo ciúmes, roubos, insultos e assim por diante. A causa mais específica de violência mortal – envolvendo perpetradores únicos ou múltiplos – foi a vingança de um ataque anterior.

Esses dados corroboram a teoria da guerra proposta por Margaret Mead em 1940.

Observando que algumas das sociedades coletoras simples, como os aborígenes australianos, podem ser belicosas, Mead rejeitou a ideia de que a guerra era uma consequência da civilização. Mas ela também descartou a noção de que a guerra fosse inata – uma “necessidade biológica”, como ela chamava – simplesmente ao apontar (como fazem Fry e Soderberg) que algumas sociedades não se engajam em violência entre grupos.

Mead (novamente como Fry e Soderberg) não encontrou evidências para o que poderia ser chamado de teoria malthusiana da guerra, que sustenta que a guerra é a consequência inevitável da competição por recursos.

Em vez disso, Mead propôs que a guerra é uma “invenção” cultural – no linguajar moderno, um meme, que pode surgir em qualquer sociedade, da mais simples até a mais complexa.

Uma vez que surge, a guerra frequentemente se auto-perpetua, com ataques de um grupo provocando retaliações e ataques preventivos de outros.

O meme da guerra também transforma sociedades, fazendo com que se tornem militarizadas e tornem a guerra mais provável.

Os Tiwi parecem ser uma sociedade que abraçou a guerra como modo de vida. Assim como os Estados Unidos da América.

A Teoria das Raízes profundas é insidiosa porque leva muitas pessoas a sucumbir a noção fatalista de que a guerra é inevitável. Errado. A guerra não é nem inata, e nem inevitável.

Riscos da nova gripe aviária entre humanos



Riscos da nova gripe aviária entre humanos

Cientistas verificam  transmissão sem contato direto com ave infectada


Por Dina Fine Maron

Antes deste ano, o vírus H7N9 da gripe aviária, ligado a 133 infecções humanas e 43 mortes, nunca havia sido visto em pessoas.

Todas as evidências disponíveis sugerem que uma barreira biológica eficaz aparentemente evitou uma pandemia – humanos só contraíam o novo vírus por contato direto com aves ou com ambientes como mercados de pássaros, nunca por transmissão entre seres humanos.

Uma nova análise da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas (CAAS), porém, sugere que o vírus está cada vez mais próximo de se transformar em uma doença transmitida entre seres humanos do que se acreditava anteriormente. 

Um grande estudo comparando os genomas das cinco cepas humanas de H7N9 conhecidas, com 37 vírus H7N9 isolados de mais de 10 mil amostras de mercados de aves, fazendas e matadouros de toda a China sugerem que o vírus só precisaria de pequenas mutações em sua estrutura proteica para se tornar facilmente transmissível entre humanos.

Além disso, testes com furões – considerados os animais mais próximos de humanos em testes de gripe – descobriram que uma cepa letal do vírus que matou a primeira vítima do H7N9 na China é transmissível por gotículas respiratórias, o que significa que ele poderia ser transmitido por tosses e espirros.

Os novos resutlados foram publicados na Science de 18 de julho. “Nossas descobertas não trazem nenhuma indicação para reduzir a preocupação de que esses vírus possam ser transmitidos entre seres humanos”, declara Hualan Chen, da CAAS e autor do estudo.

As novas descobertas são “preocupantes”, de acordo com Charles Chiu, especialista em doenças infecciosas da University of California, San Francisco. “Para esse vírus em particular, o H7N9, saber se existe ou não transmissão entre seres humanos é crítico”.

Desde abril, o número de casos de H7N9 caiu abruptamente, mas oficiais de saúde pública se preocupam que, assim como outros vírus da gripe aviária que têm padrões sazonais de infecção, o H7N9 poderia ressurgir no outono.

Com mais casos do H7N9 haveria mais oportunidades para o vírus sofrer mutações entre humanos e, consequentemente, passar a ser H7N9 transmissível entre humanos.

Os vírus H7N9 isolados de aves e humanos já têm parentesco genético próximo.

Departamento de Agricultura dos Estados Unidos
Artigo publicado na Science em 18 de julho de 2013 verificou transmissão do vírus da gripe aviária H7N9 por gotículas, sem necessidade de contato direto, entre aves e furões. A descoberta é preocupante por causa da letalidade do vírus e da ausência de sintomas dos animais infectados. 


Na análise da Science, pesquisadores descobriram que os vírus podem se conectar a receptores das vias respiratórias humanas, mas eles ainda mantêm sua capacidade de se ligar a receptores das vias respiratórias de aves.

Para que o vírus seja transmissível entre humanos, ele deve sofrer mais mutações para perder sua habilidade de se ligar a receptores de vias respiratórias de aves – uma modificação genética que, de acordo com os autores, pode ser possível com apenas algumas mudanças em sequencias de aminoácidos.   

Os resultados de artigos da Science divergem de pesquisas anteriores.

Um estudo dos Centros para Controle de Doenças dos Estados Unidos, publicados na Nature há duas semanas, também considerou a transmissão do H7N9 em furões e descobriu que apesar de esses animais transmitirem a gripe quando juntos, quando estavam fisicamente separados mas compartilhavam a mesma rede de ar entre suas gaiolas, os furões saudáveis só contraíam o vírus raramente.

Nesse trabalho, pesquisadores do CDC observaram transmissões por gotículas respiratórias em duas cepas diferentes de H7N9, e descobriram que em uma cepa originária da Província de Anhui, na China, apenas dois de seis furões contraíram o vírus, enquanto em uma cepa de Xangai, apenas um de três furões contraiu o vírus.

No novo estudo, pesquisadores também observaram várias cepas de H7N9 e descobriram que o vírus era transmitido de maneira semelhante por contato direto. Mas, em contraste com os autores dos relatórios da Nature, eles descobriram que todos os três furões expostos à cepa H7N9 de Anhui contraíram o vírus quando expostos a gotículas respiratórias.

Os autores do estudo publicado na Science fizeram os experimentos duas vezes e obtiveram os mesmos resultados.

A importância dos resultados conflitantes de infecção aérea nos dois estudos não está claro porque ambos observaram números muito pequenos de furões.

Parte da discrepância pode ter surgido de diferenças nos ambientes dos laboratórios. De maneira alternativa, o vírus pode ter mudado levemente enquanto as amostras cresciam nos laboratórios.

Esses estudos e outras pesquisas mostram que o H7N9 realmente pode se disseminar pelo ar, mas que esse modo de transmissão não é muito eficaz se comparado com o contato direto, explica Richard  Webby, especialista no vírus influenza do Saint Jude Children’s Research Hospital, em Memphis.

O novo artigo da Science “adiciona muitos dados à crescente lista de evidências de que esse vírus é algo com que devemos nos preocupar”, observa ele.

Às preocupações com possível transmissão do vírus se soma o fato de que frangos, patos e ratos infectados experimentalmente com cepas aviárias do H7N9 não mostram sintomas visíveis da doença.

Em surtos do H5N1, outra cepa da gripe, aves severamente infectadas serviam como alertas da infecção humana. Mas o H7N9 poderia se espalhar silenciosamente em mercados de aves, e não haveria maneira fácil de detectá-lo.

De acordo com Chiu, as novas descobertas devem iniciar uma vigilância mais rigorosa das populações de aves.

Outras medidas de saúde pública para combater o vírus em humanos incluem lavar as mãos, evitar tocar os olhos, o nariz e a boca, e tossir na dobra do cotovelo para ajudar a deter a disseminação do vírus.

“A replicação em humanos”, escrevem os autores, “fornecerá mais oportunidades para o vírus adquirir mais mutações e se tornar mais virulento e transmissível na população humana”.

Brasil aprova nova droga biológica contra o lúpus


22/07/2013 - 02h01

Brasil aprova nova droga biológica contra o lúpus

DHIEGO MAIA
RICARDO MANINI
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

O primeiro medicamento desenvolvido em mais de 50 anos para tratar especificamente pessoas com lúpus chegou ao mercado brasileiro neste mês. A droga, batizada de Benlysta, é uma proteína que combate o processo responsável por levar o corpo do paciente a atacar as próprias células de defesa.
O tratamento é caro. Cada infusão da droga, administrada por injeção intravenosa, custa R$ 3.800 para alguém com até 60 kg. Só no primeiro ano do tratamento, é preciso desembolsar R$ 57 mil pelas 15 doses previstas, mas o custo pode ser maior, de acordo com o peso do paciente, segundo a fabricante GSK.
O tratamento existente hoje, à base do anti-inflamatório cortisona, não custa mais do que R$ 2.000 ao ano. A droga também é distribuída pela rede pública de saúde.
Estima-se que o Brasil tenha 200 mil pessoas com lúpus. Por ano, mais de mil casos são diagnosticados. Segundo o Ministério da Saúde, em 2012, a doença levou à internação 4.475 pessoas. As mulheres são as mais afetadas. Em cada grupo de dez doentes, nove são mulheres em idade reprodutiva.

Editoria de Arte/Folhapress

O lúpus é uma doença autoimune. Morton Scheinberg, reumatologista que coordenou parte dos testes clínicos da nova droga no Hospital Abreu Sodré, explica que os linfócitos B, células de defesa, produzem anticorpos que atacam o organismo das pessoas que têm a doença.
O lúpus mais "leve" causa artrite, fadiga, perda de cabelo e problemas na pele. Em fase moderada, a doença leva a uma queda no número de plaquetas e glóbulos brancos no sangue. Casos graves acometem os rins e o sistema nervoso central, causando desde dores de cabeça até convulsões e paralisia.
O novo remédio, que também é um tipo de anticorpo, dificulta o amadurecimento dos linfócitos B para reduzir seu ataque aos tecidos saudáveis do organismo.
Segundo Roger Levy, professor da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) e pesquisador que avaliou o Benlysta no Brasil, os efeitos adversos da cortisona aparecem com o tempo. "Anos de uso podem causar diabetes, hipertensão, aumento de peso, queda de cabelo e necrose nos ossos", afirma.
A nova droga, porém, não é isenta de efeitos colaterais, incluindo infecções graves, náuseas, diarreias e febre.
De acordo com o reumatologista Luiz Coelho Andrade, da Unifesp, o Benlysta não vai substituir o tratamento existente. "O uso deverá ser complementar ao tratamento convencional."
O médico nota avanços no tratamento da doença. "Há 40 anos, mais da metade das pessoas com lúpus morria. Hoje, quando o paciente descobre que tem a doença, dizemos que ele vai levar uma vida normal, apesar de eventuais complicações."
A FDA (agência reguladora de fármacos nos EUA) autorizou a venda do Benlysta após oito anos de pesquisa. Os estudos foram feitos em 31 países, incluindo o Brasil. A GSK diz que pretende comercializar o medicamento também na versão para injeção subcutânea em três anos.
Colaborou DÉBORA MISMETTI
DHIEGO MAIA e RICARDO MANINI participam do 1º Programa de Treinamento em Ciência e Saúde, que tem patrocínio institucional da Pfizer